Pai de Verdade

Hoje vejo pais que não se parecem com os pais de antigamente… eles se parecem com irmãos, professores, avôs e, muitas vezes, se parecem muito mais com mães do que com pais!

São eles, os pais modernos, que aplaudem o sucesso do filho bailarino, que não se envergonham do filho homossexual, ou transexual, ou “multisexual”… esses pais andam lado a lado com os filhos excepcionais, descobrindo a maravilha que é pertencer ao mundo deles.

Eles são os pais que adotam crianças que nada têm a ver com a sua genética clara e fina, e que, ainda assim, conseguem enxergar a mais perfeita semelhança entre as espécies, ao olhar no fundo dos seus olhos.

São os pais modernos que não têm medo de assumir tarefas femininas só para poder participar ativamente do universo dos “seus”; são eles que buscam os filhos no mundo das drogas, que os retiram dele, e que, às vezes, morrem um pouquinho a cada dia com eles…

São os pais que adoecem junto com seus filhos, que sofrem a dor deles sem poderem se deitar nas suas camas, que enxugam as lágrimas e que vão à luta todos os dias, mesmo não querendo, mesmo quase não conseguindo, mesmo não suportando, mas ainda assim, vão.

São para esses pais, para os que são pais em hora integral, ou em hora em que lhes é possível ou permitido ser; para os pais que não são perfeitos, mas que são possíveis e reais; para aqueles pais que abrem um sorriso largo e profundo quando falam dos seus filhos; para os pais que sentem orgulho e os que não conseguem se orgulhar, mas ainda assim tentam; e, por fim, para os pais que já não estão mais aqui entre nós para receberem sua merecida homenagem: para todos vocês, que são pais de verdade, o meu aplauso. E para todos os outros que não são: vocês não sabem o que estão perdendo…

Fui! (agradecer…)

(crônica originalmente publicada em 2015 em Mariascarlet.com )

Suas Promessas

De todas as promessas que faremos em nossos votos, as que mais me importam são as que residem nos detalhes da nossa convivência… nunca quis sua promessa de fidelidade conjugal, apenas sua real intenção em ser fiel a minha felicidade; quero a fidelidade do seu pensamento em todos os momentos em que eu estiver nua com você. Quero seu desejo permanente, mesmo quando estiver amamentando nosso filho, ou quando não estiver na minha melhor forma…

Espero que jure amor eterno à minha alma debochada, irônica e infantil. Quero que ame minha percepção realista e, por vezes, temerosa da vida que nos acompanha… quero enxergar verdade nas promessas feitas para durar e não nas que serão postas em um altar enfeitado, para depois serem expostas em alguma briga vulgar, sem propósito e sem razão. 

Não quero a promessa de que você estará ao meu lado se algum dia meu corpo adoecer; ao contrário, quero que vá embora caso não se sinta apto a cuidar de mim como deveria; mas, se ficar, quero que cuide da minha alegria, para que eu me recupere mais rápido e com mais vontade para voltar à minha plenitude. 

Quero que me prometa que não vai me deixar usar óculos escuros por muitas horas, para que eu possa enxergar a maravilha que é o mundo, com todas as suas cores exuberantes. Quero que me obrigue a comer aquele chocolate que tanto amo, sem pena de engordar em lugares que só me farão ficar ainda mais deliciosa do que já sou e, por fim, quero a sua promessa de que vai manter viva a minha autoestima, tão essencial para minha sobrevivência quanto escassa na imensidão de bons sentimentos que nutrem a minha expectativa sobre mim.

Quero que saiba que eu perdoarei suas falhas no decorrer do caminho, mas não aceitarei falta de caráter com a nossa história, aquela que deve ser sagrada diante das nossas futuras reflexões e que fará você escolher o melhor caminho para voltar para a sua casa, sempre que surgir alguma dúvida sobre nós…

E, se você resolver ir embora algum dia, quero se lembre do juramento mais importante que me fez quando tomamos banho juntos, em uma terça-feira qualquer do mês de agosto: que eu teria sempre o gosto do seu amor, acobertando meu corpo com as orações de bem-querer, que guardariam as descobertas que fizemos juntos durante todo o tempo que compartilhamos entre nós…

Fui! (Cumprir minhas promessas de amor…)

Meu PAI DIF=R=NT= :-)

No livro da minha história de vida, vi os registros do meu pai. Sempre soube que ele era diferente, meio afeminado, meio delicado, meio distante da realidade sufocante do conluio dos pais do meu colégio.

Sempre percebi sua falta de habilidade para embarcar nas conversas essencialmente fúteis dos outros pais, sempre muito preocupados com o jogador de ponta direita que limitava os passos do atacante, ou com o grau exato em que a cerveja estaria boa para ser degustada, entre os palavreados de baixo calão, quando o nível do futebol atingia a dramaticidade pleiteada pela torcida entusiasmada.

Sabia que meu velho não era parecido com os melhores pais, aqueles que ostentavam marcas poderosas no corpo e no asfalto; meu pai ostentava o olhar artístico que encontrava beleza em peças recicladas ou que haviam sido presenteadas por um alguém especial. Meu pai não era, nem de longe, um alguém em que se pudesse confiar para caminhar um percurso em linha reta, de um simples ponto a outro; ele era complexo por definição e tudo a seu redor girava em sentido oposto ao seu centro, pois ele era alguém que conjugava diversos pontos e que, por vezes, se perdia em alguns deles…

Quando planejei minha festa de casamento, duvidei de mim como filha e dele como pai, no momento em que vislumbrei a festa tradicional sendo conduzida por uma referência religiosa que provavelmente o criticaria, sendo vista por olhares preconceituosos que certamente o discriminariam e sendo sentida por mim, sua filha, que constrangedoramente  o repudiaria por não conseguir inseri-lo, mais uma vez, no meu mundo enfadonhamente bege.

Lembrei-me de todas as risadas, de todas as fofocas e de todos os comentários maldosos que giravam em torno do meu delicado e especial pai e percebi que ele nunca foi realmente o pai que eu ou a sociedade em que cresci esperávamos; ao contrário, ele foi diferente de tudo o que eu conhecia como pai e de todos os estereótipos paternos que o colocariam em um patamar de igualdade com os pais das minhas amigas.

E foi quando resolvi, convencida de mim, que deveria entrar no altar da castidade ao lado da minha parte mais casta, mais vigorosa e mais plena. Dei as mãos ao meu pai, que optou por usar um vestido vinho, elegantemente decorado com adereços reciclados que lhe haviam sido presenteados por pessoas especiais, e entrei no espaço sagrado que contemplaria minha nova união com um marido que nasceria a partir daquele momento.

Fechei os olhos em uma oração silenciosa e pedi aos Deuses que me concedessem o privilégio de ter ao meu lado uma pessoa com um pouco da delicadeza de alma que meu pai me havia brindado por toda sua vida. Quando abri meus olhos vi a expressão do meu pai, com seus cílios compridos e seus olhos cheios de emoção, agradecendo o tempo que passamos juntos. Abracei-o de volta e entreguei todo meu amor, exatamente da forma que ele queria: aceitando a pessoa maravilhosa que ele sempre foi.

Fui! (Lamentar pelos que ainda não conseguiram enxergar o que eu finalmente consegui…)

* Eu apoio a campanha da Natura para o Dia dos PAIS.

** Eu apoio todas as campanhas a favor dos bons PAIS.

*** Eu apoio todos os pais que são PAIS DE VERDADE. Viva o AMOR.

Cris Coelho

Desajustadas

Sempre esperei pelo dia em que ela me desculpasse… entendi seus sentimentos controversos em relação à nossa amizade e aceitei sua raiva e seu desprezo por tudo que fazia parte do meu universo. O mundo era meu, de fato, e não havia nada que eu pudesse dizer para mudar isso. Você estava sempre ao lado, na espera do que haveria de sobra dos meus aplausos, das minhas vagas, dos meus créditos.

Hoje vejo o mundo imperfeito que meus pais ajudaram a construir, com todas as desigualdades urgentes vindo à tona e toda a correnteza de mágoa que se prolifera na mesma velocidade com a qual meus meus híbridos amigos se despedem desta órbita em direção ao seu reduto de fé e pensamentos bons.

Entendo que agora já não sou bem-vinda ao seu novo palácio, pois não pertenço ao seu clã, não comungo das cores, tecidos e gírias; não consigo acessar seus códigos e não me pareço nada com o novo estereótipo de beleza exigido.

Eu virei a sobra e você, o todo. E me pergunto todos os dias: por que tanta mágoa guardada? Por que não podemos recomeçar de onde nossos pais pararam? Por que não construímos um novo trajeto, agora sem bifurcações e sem pedágios?

E foi quando eu entendi que somente nossas netas viveriam o suficiente para contemplar uma conversa entre iguais. Até lá, seremos várias de mim tentando encontrar milhões de você, em estradas que não coincidem…

Fui! (Tentar mais uma vez…)

Lar Doce Lar

“Lar doce lar”, era o que pensávamos até fevereiro deste ano, quando sentíamos falta do aconchego do nosso sofá, do gosto da comida que sai da nossa geladeira, que passa pelo fogão ou microondas e que chega deliciosa na nossa mesa, ou ainda, do calor que sai do nosso chuveiro, sempre tão energizador, e que alivia todo o cansaço de um dia inteiro de trabalho e atividades.

Pedíamos aos Deuses por um pouco mais de tempo, algo tão necessário quanto raro, que parecia sempre fugir do nosso escasso controle todas as vezes em que tentávamos agarrá-lo. Era mais tempo que queríamos para passar com nossos filhos, para tentar ajudá-los em suas escolas, para que pudéssemos ver filmes e fazer as coisas que eles gostam… precisávamos tirar um tempo para respirar, para alongar e para nos conectarmos melhor com nosso eu interior; precisávamos desse tempo sabático para refletir sobre tudo que cerca nossa vida e as escolhas que fizemos há tantos anos e que ainda fazemos todo dia, quando aceitamos ingerir as doses massivas de rancor, mágoa e tristeza por algo que ficou lá atrás, mas que não conseguimos digerir…

Queríamos arrumar aquela gaveta, aquela toda bagunçada que mistura clipes, recibos, chaves e um monte de coisas que não temos paciência para categorizar adequadamente na correria de uma rotina estafante e enlouquecedora; aliás, por falar em loucura, percebemos o quão é louco esse negócio de querer algo! Sempre quisemos o que agora temos, mas agora já não o queremos mais, queremos de volta um pouco do que tínhamos, em doses fortuitas de prazer nostálgico e incoerente, que nos faz rir das nossas esquisitices e entender o sarcasmo que acompanha nossas vidas imperfeitas, cheias de um querer impossível de ser alcançado.

E por quê? Porque nosso querer sempre estará à frente de todas as nossas expectativas, ainda que sejam as mais simples, pois é ali que ele vive…

Fui! (Rever minhas expectativas…)

Meu Eu Mais Autêntico

Por tanto tempo busquei me encontrar; por tanto tempo investi em coisas que me levassem para mais perto de mim, como roupas da moda, cortes de cabelo, diferentes propostas de trabalho e amores ideais para acomodar minhas aflições mais urgentes…

Por esse longo tempo busquei a minha melhor versão, a mais magra, a mais bela, a mais adequada. Por tanto tempo quis encontrar encontrar paz com o meu eu mais certo, aquele mais pleno e vencedor e, durante todo esse tempo, tentei enganar minha mente dizendo que estava tudo bem, que eu era quase perfeita, ainda que na minha visão míope…

Encontrei, anos depois, uma versão bem mais leve e autêntica de mim, que comungava minhas vontades com a essência que eu carregava na alma: diferente, curiosa e forte.

Demorou muito para entender o verdadeiro significado de ser autêntica, e, ainda que com ressalvas, resolvi ser fiel às dores e excessos que carrego no corpo cheio de cicatrizes e memórias prazerosas; entreguei minhas culpas ao abismo do esquecimento, para onde não posso voltar e de onde parti com novos amigos chamados esperança, plenitude e amor próprio.

E depois de tanto tempo posso, finalmente, olhar-me nua na frente do meu espelho sem reclamar de nada que vejo, e percebo, quase sem querer, que minha alma dança mais leve dentro do meu corpo, em doses plenas de harmonia e em compassos de liberdade.

Fui! (Me enxergar de verdade…)

Pequenas Partículas

Pequenas são as partículas que vêm e que se vão em um turbilhão de pensamentos inconstantes que tenho sobre meu passado e as incertezas sobre o meu futuro, pois se hoje sou mais madura e consciente do que quero, também sou infinitamente mais pessimista sobre as oportunidades que me levariam mais longe ou as verdades que me fariam mais alegre.

Encontro razão nas partículas pesadas que insistem em chamar minha atenção, assim como minha alma complexa e machucada por anos de incompreensão e carência. Ao olhar para o lado, vejo as partículas leves e descontraídas do meu vizinho, que seguem seu caminho rumo ao universo de todas as partículas agregadoras e lindamente homogêneas, mas, realmente, não me vejo dentro deste conjunto de boas intenções, pois a cadência das minhas músicas vibram sempre em uma frequência mais alta e irregular…

Aproveito para deliciar-me com as belezas infames que ofuscam minha visão sobre a vida cotidiana, tornando-a turva e nebulosa, e que invadem meu mundo de uma forma mais dolorida que a dos meus amigos, que possuem uma visão um pouco mais superficial e leve da atmosfera que nos envolve.

Saúdo, enfim, as partículas maiores e peço licença para admirar as pequenas complexas, que se acumulam na vasta área de lazer da minha ignorância sobre o tempo, a vida e seus milhões de derivados. Ocupo-me de mim em um instante de certezas, onde projeto meu futuro exatamente da forma que imaginei há muitos anos, sem nenhuma partícula cinza e todas com um tom bem mais alto que o do meu vizinho rabugento…

Fui! (Reunir minhas partículas pequenas, pesadas e únicas…)

Eu Só Quero Te Dizer Isso…

Eu só quero dizer que você sempre esteve aqui, ao meu lado. Para mim, você é como uma brisa, um sopro de água salgada inundando meu corpo saudoso… te respiro todo o tempo em que admiro as ondas brutas colidirem na areia fofa da praia, da mesma forma em que sentia seu corpo pesado sobre o meu, na cama alugada que servia de abrigo para o nosso amor fugitivo…

Quero que saiba que eu não te esqueci, que apenas virei em uma esquina sem volta, em uma daquelas em que nosso caminho não pode mais se encontrar, pois o fluxo é muito violento para um dos lados e a contramão representa um risco enorme.

A saudade que ainda sinto ficou tatuada no meu corpo, como uma lembrança viva de nós, sem remorso ou arrependimento. Pensamentos sobre como a sua rotina deve estar vêm e vão, mas prefiro não saber realmente quem é a pessoa que você se tornou, pois prefiro ficar com a versão borrada do seu olhar contemplando a beleza que era nossa vida louca e nosso amor impossível e prematuro. Prefiro ter você na forma perfeita que se acomodava dentro do meu abraço, cheio de vontade e desejo, com aquele sorriso aflito e os pensamentos comedidos, que se entrelaçavam em uma longa fila para sairem faceiros pela mesma boca que acariciava minha face, cada vez que você ia embora…

Então, no dia de hoje, eu apenas quero que você saiba, de onde quer que você esteja e ao lado de quem for, que eu levo um pouco de você comigo, e vivo muito, mas muito feliz com esse pequena parte sua. Sim, pode parecer pouca coisa, mas garanto: para mim essa parte é tão grande quanto essas ondas que não param de crescer e beijar a parte da areia que me pertence…

Fui! (Te dizer isso…)

O Enterro dos Sonhos

Tanto tempo planejei minha vida com eles, e desde sempre quis estar dentro de seus braços acolhedores e indubitavelmente fascinantes… planejei meu futuro com as cenas perfeitas dos meus sonhos mais difíceis de serem alcançados, vivenciei a experiência de ser ainda mais próspera na companhia dos meus amigos caridosos, que me entregariam exatamente a dose que eu precisava para ser infinitamente feliz, e entendi que minha vida seria algo bem próximo do ideal que eu havia construído no meu imaginário criativo.

Fui paciente durante todo o tempo em que testemunhava a mudança das estações, as comemorações em datas marcantes e a passagem do tempo vivenciada em cada fio de cabelo que perdia sua cor natural. Entendi que as coisas não acontecem exatamente na hora em que desejamos e que, se buscarmos com vontade, elas estarão ali, na próxima curva, prontas para serem abertas e degustadas em uma única mordida gulosa. 

Rezei a oração que me ensinaram e fiz quase tudo que podia para vê-los vivos no meu futuro. Não excedi, porém, a linha tênue que divide minha vontade da loucura que seria abandonar meu propósito para abraçar sonhos particulares e genuinamente egoístas. Fiz o que era possível e o que era justo dentro do meu tempo e da minha preguiça. E desejei por muito tempo que a graça divina brindasse meu caminho com as vontades que tinham som de desejos e eram escritas na forma de sonhos.

Virei tantas curvas quantas foram possíveis e perdi as contas de quantas vezes achei que encontraria meus sonhos me esperando ansiosos para que eu os desfrutasse. Fui ingênua ao acreditar que os Santos me dariam aquilo que talvez não me pertencesse e cheguei a ter raiva dos discípulos que vivem do outro lado da ponte, por não me darem o que eu tanto queria.

E, ao passar pela última vez na estrada de terra batida que guardava meus pedidos e desejos, parei e ajoelhei-me em frente aos sonhos que nunca se realizaram. Libertei-os de toda a minha ganância e deixei que seguissem livres para um outro alguém, um que os merecesse ou que os quisesse com verdadeiro afinco. Entreguei um pouco de mim durante a nossa despedida, deixei que levassem parte da minha inocência e recebi de volta um resumo sobre a história da minha vida, tão cheia de sonhos que nunca sonhei, mas que me fizeram muito feliz também…

Fui! (Agradecer e sonhar de novo…)

O Que a Cinderela Quer?

E de repente o sonho de toda uma juventude se foi… as Cinderelas perderam seus status e passaram a ser as cortesãs da cidade, sempre em busca de um pouco mais de algo que elas mesmas nem sabiam ao certo o que era… 

No começo, elas descobriram que seu orgasmo era mais importante que seu recato, e com isso quiseram experimentar várias formas de prazer e ousaram ser autênticas em um mundo de pura hipocrisia. Mas descobriram, sem tardar muito, que o português é essencialmente masculino no quesito “qualidade”,  que esconde o gênero feminino sem nenhum pudor ou vaidade; descobriram também que, por mais que se esforçassem em permanecer belas, as Cinderelas, inevitavelmente, seriam trocadas por outras ainda mais belas, ou mais jovens, ou mesmo, mais livres. 

Elas aceitaram continuar com seus afazeres domésticos após receberem seu pesado anel, tão pesado quanto o fardo do dia a dia, que lhes cansavam a visão e lhes enchiam de pequenas coisas chamadas ansiedade, frustação e desânimo. As Cinderelas aceitaram parir o fruto desta união, que lhes entregou uma nova perspectiva de amor e, igualmente de cansaço.

Elas tentaram voltar para o trabalho, algumas conseguiram, outras não. Continuaram a tentar então. Mantiveram-se firmes no propósito de ter uma casa arrumada, uma mente sã e uma geladeira abastecida de todas as comidas mais saudáveis possíveis. Ensinaram suas crias que a vida regrada e dentro dos limites é a vida segura, que vai lhes favorecer o sucesso no futuro e, assim que os seus  iam dormir, se afundava em comprimidos, taças de vinho e pedaços de chocolate. 

As Cinderelas da vida moderna viram seu amor sair pela porta que um dia entraram juntos, rumo à uma vida feliz, cheia de expectativas e promessas. Hoje elas descobrem seus orgasmos com estranhos de aplicativos de relacionamento, fazem massagem tântrica e lêem conteúdo erótico. Elas não se cansam de escolher novas formas de sentir prazer, apesar de sua pele mais áspera e ressecada, apesar dos vários acessórios que juntaram pelo caminho…

Elas tiveram que sonhar outros sonhos, alguns bem diferentes do que haviam sido ensinadas a sonhar. E acabaram descobrindo que o seu querer inicial não era bem o “príncipe”, mas sim um vestido lindo e uma festa foda…

Fui! (Ensinar minha filha a escolher melhor seu vestido…)