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“Cídio”

agosto 8, 2018

feminicidioporms

Vivo nessa bolha gigante que sustenta a minha vida. Vivo aqui dentro enquanto posso e enquanto tiver forças para sobreviver a você… sou um reflexo do que não deveria existir, mas existe. Sou a prova da sua fraqueza, do egoísmo constante que você insiste em propagar pelo mundo com os dizeres: “meu direito”.

Sou eu quem precisa de cuidados, mas você se coloca à frente. Você não pensa um segundo sequer no quanto vai me machucar e no quanto vai custar o sofrimento que você vai colocar no meu caminho. Você não me quer ao seu lado e também não quer me dar a oportunidade de me deixar seguir adiante para, talvez, encontrar consolo nos braços de um outro alguém.

Respiro mais rápido em busca do ar que nunca vou conseguir absorver. Busco Deus onde quer que Ele esteja para me proteger de quem deveria cuidar de mim. Imploro pela vida que não tive e entendo que minha hora está chegando. 

Vejo meus sonhos se despedaçando em grandes promessas não cumpridas e sinto todas as emoções que me fariam degustar a graça que é viver passarem por mim como memórias do que eu não tive e jamais terei.

Rezo por meus pais e peço perdão por não ter conseguido lhes mostrar o gosto do orgulho e do regozijo da vida em cada vez que eu apoiasse minhas mãos sobre as deles, em cada vez que eu contasse sobre o meu dia, em cada vez que eu voltasse para casa.

Agora fecho os olhos e espero pelo meu cídio. Esse é o nome do senhor da morte, daquele que nos busca sempre que a nossa hora é escolhida, por nós ou pelos nossos amores…

Fui! (morrer pelo “feminicídio do aborto“, que mata muitas mulheres que não tiveram a chance de viver nem um dia sequer…)

Sua Benção

agosto 7, 2018

Depois de tantos passos, de tantos encontros e de tantas reviravoltas na vida, volto para você com um único pedido: sua benção. Peço que você me compreenda, que entenda que tudo que fiz foi por mim, para me sentir melhor com a minha vida, mesmo sabendo que ela é mais importante para você do que para mim…  


Sei que você ficou preocupada com alguns caminhos tortos que tomei, mas saiba que eles foram providenciais para chegar até aqui, na rua enlamaçada a e cheia de desvios. E se você não se contentou com os sapatos que eu nunca calcei foi porque você sabia que em algum momento eu ia me machucar. Sim, eu me machuquei e meus pés ficaram cheios de feridas, mas foi bom saber que eu tinha esse par de sapatos guardados; e, ainda que pequenos, ainda que desbotados, foram eles que me lembraram do conforto que existe no seu colo.


Não aprendi ainda a obedecer suas ordens, mas hoje consigo entender seu amor exagerado, cheio de cuidados extremos e afetos desconcertantes. Aprendi a escutar sua voz quando a chuva pesada insistia em cair sobre meus ombros descobertos. Aprendi a te ouvir quando você já não estava ao meu lado para dizer coisa alguma, porque o que havia sido dito foi adiante com o vento; não se apagou com as águas que tudo lavam e que também não conseguiram lavar aquela mancha de batom do seu beijo carinhoso, no dia em que cruzei por aquela porta…


E se você me perguntar se vou caminhar descalça de novo, te respondo que sim. Vou descalça em busca do meu destino porque ao final da estrada sei que você estará lá, segurando meus sapatos e pronta para me dar a sua benção novamente.


Fui! (buscar sua benção, descalça e debaixo da minha chuva…)

 

Minha Casa

julho 14, 2018

mao

Depois de todas as tormentas que enfrentei, depois de todos os caminhos que percorri, foi em seu colo que senti que havia chegado “em casa”. E quando entrei e não te encontrei, me senti igualmente segura, pois o seu cheiro ainda impregna minha vida, seu calor ainda esquenta minhas mãos e seu olhar, sempre vigilante, ainda me conforta. 

É você, em um milhão de definições diferentes que encontro quando procuro meu cobertor de infância, aquele que tem as lembranças mais doces e divertidas, de um tempo que não voltará jamais, mas que me faz todos os dias recordar como é ser cuidada de verdade.

Não me esqueço, um segundo sequer, de rezar a oração que você me ensinou. Não me esqueço de olhar para as partes mais óbvias de todo texto para tentar encontrar algum sentido escondido entre as vírgulas e os pontos finais. Não me esqueço de você e, mais presente ainda, é a lembrança das suas mãos ásperas segurando meus dedos frágeis e pequenos. 

E todas as vezes em que sinto medo, me protejo com as lembranças que tenho de como eu me sentia quando estava ao seu lado; me lembro que permaneço com você ao meu lado, mesmo sem te ver. Me lembro de senti-lo, e sinto a proteção que me abraça e me aconchega nessa energia que é inexplicável, mas ao mesmo tempo real.

Fui! ( buscar suas mãos…)

Partituras Livres

julho 10, 2018

partituraslivres

Hoje percebo o quanto o tempo é nosso amigo. Ele nos ensina a aguardar, até último segundo, aquele em que já pensamos ser inútil, mas que ainda está lá. É o tempo, o senhor de todos os sons, dos mais agudos aos mais graves; é ele quem dita o caminho pelo qual a partitura da nossa vida vai se desenhando, e é ele que, sem pudor, nos convida a nos retirarmos, em hora providencial para a trilha sonora que ele construiu. 

Podia pensar que ele é um ser sem coração, que age por pura ambição, mas quando paro para escutar a partitura final que ele compôs, entendo que a perfeição nem sempre é entendida por nós, simples mortais do tempo escasso; a perfeição está no desajuste e nos desencontros que o tempo insiste em impor, em um gesto simples e quase irônico, quando nos tira o que jamais foi nosso, para brincar com nossa mente egoísta e nosso ego magistral.

É ele, o senhor Tempo, quem dita as façanhas da nossa pobre e ordinária existência; é ele quem nos diz quando e é ele quem nos impulsiona a ser livres, mas “livres” no tempo dele, é claro. 

E ao som dessas partituras feitas exclusivamente para mim, sigo dançando plena. Tenho orgulho da maior parte da coreografia, mas me envergonho de alguns passos errados, de posições um tanto constrangedoras para o espetáculo. E a cada queda, me levanto e me recomponho. E a cada parada, respiro. E a cada nova melodia, danço.

Fui! (escutar a maravilha que é a minha partitura…)

Mais Leve

junho 26, 2018

Caminho por esta estrada mais segura desde que deixei para trás os pensamentos sombrios sobre o destino dos meus. Troquei o peso das minhas incertezas pela leveza do meu hoje ao lado deles. Escolhi uma mochila mais informal, sem tantos detalhes, sem tantos dourados para adornar as minhas costas doídas; ao invés da elegância, preferi a simplicidade e a praticidade. Escolhi as cores mais claras para dizer sucintamente o que eu sinto, em um bom e básico português. As palavras saíram fluídas e fáceis, e formaram frases comuns, mas que dizem tanto, como um “eu te amo” ou “eu estou ao seu lado”.

E foi assim que descobri a graça que é viver. Sem esperar por mais, só mesmo agradecer pelo que chegou… foi assim, entre passos mal dados e escolhas difíceis que entendi que aquele abraço era muito mais que uma despedida; aquele abraço era um ritual. E sempre que me lembro dele penso na oração que inventamos, naquele hino especial que só pertence ao nosso time.

Porque as recordações ficam, apesar da história seguir. O caminho muda, mas os passos que foram dados ficam ali, eternizados para sempre nos instantes em que nos encontramos e vivemos juntos, tão cheios de bagagens inúteis e de dourados sem tanto propósito. As bagagens foram substituídas, a estrada foi asfaltada e nós envelhecemos. Perdemos um pouco de nós também, a cada despedida, a cada preocupação, a cada angústia vivida; mas ganhamos mais com a leveza que passou a nos acompanhar a partir daquela curva, a partir daquele abraço…

Fui! (trocar minha mochila por uma mais leve…)

Pelo Vale…

junho 21, 2018

Ando por este vale sem saber direito para onde ir. Procuro por você e não consigo encontrar seu olhar. Suas mãos sempre estiveram ali, perto das minhas, para que eu pudesse agarrar se precisasse. Mas eu quase não precisei delas porque na verdade eu queria caminhar na frente, queria correr e ser livre. Queria ser livre de você.

E, em todos os momentos em que me senti forte, era porque eu sabia que você estava ali, ali atrás, pronta para me segurar. E, em um momento, entendi que as amarras que eu tanto quis cortar eram apenas meus pensamentos que me levavam todo o tempo até você.

Foram essas mãos que me ajudaram a seguir adiante; que me empurraram com força para chegar até aqui. Foi você que me fez mais forte pelo desejo de ser diferente de tudo em que você acreditava. E hoje percebo o quanto sou idêntica a você. Tenho o mesmo olhar, a mesma forma compulsiva de amar, o mesmo sentimento avassalador que explode dentro de mim cada vez que penso em como a vida é linda e no quanto ela é frágil.

Meus pedaços estão espalhados por todo o vale, esse vale que insiste em me ludibriar e me enganar. O vale que se transforma em um labirinto para que eu não consiga escapar… mas quando consigo respirar, encontro uma forma de sair daqui. Busco suas mãos com toda vontade e peço, enfim, sua tão valiosa ajuda.

Sou eu, em uma versão tão pequena que implora por mais um pouquinho de você, por mais alguns instantes com a sua energia inebriante e tão encantadoramente sufocante. Encontro finalmente a saída e, embora perceba que você não está lá, descubro que o destino para onde este vale leva nunca importou na verdade. 

O propósito era mesmo a jornada ao seu lado.

Fui! (Buscar suas mãos…)

Set Me Free

junho 17, 2018

Todos os dias em que acordo eu peço para esse ser que me governa um pouco mais de tempo. E peço paz… peço um pouco de tudo que é bom demais para deixar pelo caminho; peço o que preciso para continuar. E peço perdão por todas as pegadas de erros que deixei na estrada.

E ele me diz, todos os dias, que o mar vai me trazer essa paz, todas as vezes em que ele vier me molhar e, juntamente com suas sábias ondas, limpar as marcas de areia que esculpi com meus pés pecadores. 

Ele me diz também que as coisas boas que deixei pelo caminho eram boas, mas que provavelmente não eram mais necessárias. Conforta minha alma quando afirma que o que eu preciso está aqui, dentro da minha mochila velha, basta procurar com cuidado que eu vou achar.

Mas eu insisto e pergunto: “E um pouquinho mais de tempo que lhe pedi?” Ele sorri e me responde: “Quando acabar eu te aviso…”

Então sigo minha estrada, tentando entender um pouco dessa história que chamamos de vida, dos encontros e reencontros que nos seduzem e nos fazem sorrir, e dessa lógica sem sentido que é o tempo que pensamos possuir, que achamos tão longo quando sentimos culpa ou dor e que parece se esvair em segundos quando queremos prende-lo para sempre, em instantes que poderiam ser eternos se fossem verdadeiramente nossos…

Fui! (mergulhar nesse mar chamado vida…)