Enfim, em Paz

oeueelaquer

Enfim, encontro a paz que tanto busquei. Retiro a maquiagem despropositada e sem utilidade para enxergar o rosto que desfrutou comigo tantas alegrias fugazes e desgostos que demoraram mais do que eu gostaria para partirem em busca de um outro lar rancoroso…

Encontro em meu tempo vago razões para não fazer nada, exatamente da forma que planejei há muitos e muitos anos atrás. Agora posso usufruir da minha companhia sem medo do que vou encontrar depois que atravessar a próxima esquina dos desafetos que conquistei e dos amores que desperdicei; sou eu, em uma versão milhões de vezes mais forte que se depara com a menina e a senhora, ambas mais complexas e irritantemente perfeitas, cada uma com suas vantagens paradoxais e nenhuma com a incrível sensação de plenitude que hoje desfruto.

E essa sensação que hoje saúdo se deve à liberdade dos meus passos, que hoje parecem deslocar-se do piso frio que reveste os poucos metros quadrados da casa que me serve de lar. E é irônico pensar que, justamente no momento em que eu deveria sentir-me mais presa e enclausurada, encontro meu mais profundo regozijo e renuncio aos males que carreguei por tantos anos a fio. Desfaço-me das culpas fortuitas e abraço a falta de comprometimento com o mundo para agarrar-me a única ideia que prevalece forte em minha mente: o meu mais profundo bem-estar.

Entrego o incômodo que anunciava minhas palpitações, devolvo as ingratidões que sofri e ignoro os incômodos pela falta de aplausos no percurso do meu caminho. Já não me importam as palavras ditas com desdém ou as palavras jamais ditas em hora nenhuma, que fizeram tanta falta um dia…

Quase não reconheço-me em cores tão suaves, com um semblante tão sereno… já não busco dar minha opinião a quem não clamou por elas e avalio se o peso das angústias de outrem vai ser saudável para o meu equilíbrio. Lembro-me de tudo que havia programado e percebo que agora, nesse momento infinito, já não me importa concluir todos os itens da minha lista, apenas alguns deles ou mesmo nenhum. Percebo que esses itens, na verdade, não importam mais. Porque a única coisa que me importa fazer neste tempo sagrado é contemplar a maravilha que é minha vida, frente a esta própria realidade, a minha.

Não lamento mais a dor dos que ficaram sós e não angustio-me pelos fatos que não posso mudar. E é claro, peço que não me enxergue como uma pessoa fria ou egoísta… sou apenas um alguém que precisa tirar um tempo longe do mundo para dedicar-se única e exclusivamente aos seus caprichos pessoais e intransferíveis, como perceber a intensidade dos raios solares que entram pela fresta da minha janela no meio da manhã.

Fui! (Sentir-me…)

Cris Coelho

A minha literatura é livre de estereótipos, padrões e convenções. Ela entrega poesia onde há cotidiano. E renova minha fé em mim e no mundo. Cris Coelho, Escritora & Poetisa