A Vida Depois do Covid-19

recomeco

Uma nova oportunidade surge em meio à tempestade que assola nossa pequena vila sem piedade. Emergimos de palácios feitos de barro, esculpidos de vaidade e bonança, pintados com orgulho e boas doses de prepotência… 

Somos todos reféns de um sistema impiedoso, onde o erro do outro nos alcança onde quer que estejamos, na fila de espera ou mesmo na sala “vip” de um aeroporto qualquer… pedimos perdão pela imprudência de quem não conhecemos, e odiamos o outro que nos deixou à deriva, sem razão ou motivo, apenas para satisfazer a própria vontade de beber mais uma dose, de conversar um pouco mais, de ter um pouquinho “mais” de algo que nem deveria ser tão fundamental.

Perdemos aquilo que nos era tão caro, ainda que não contabilizado ou percebido: perdemos a nossa liberdade e tudo o que deriva de seu significado. Perdemos a liberdade de sermos quem éramos, de propagar as nossas regras cheias de adornos e espaços vazios a serem preenchidos, perdemos a liberdade de não absorvermos todos os dramas cotidianos dos nossos filhos, perdemos a chance de equacionar as nossas conversas com aqueles que amamos, que nos roubam tanto do nosso novo “eu” que optamos por enviar curtas e rápidas mensagens para eles. Perdemos a oportunidade de apertar as mãos de quem não gostamos de verdade, mas que procuramos agradar para não parecermos antipáticos; agora seremos nós e eles em olhares diretos, palavras e atitudes que nos definirão genuinamente. 

Andaremos pelo meio-fio com medo do toque, com medo do ar, com medo da vida do lado de fora da nossa janela. Seremos mais acessíveis do que nunca pelo mundo digital e nele viveremos até o final dos novos tempos. Nossa casa será cada vez mais completa de acessórios e bem menos cheia de corpos com fluídos e secreções inoportunas. Seremos mais e teremos mais, não importa o que aconteça do lado de lá da rua. Porque o mundo que conhecíamos nos afastou dos outros para nos forçar a encontrarmos nós mesmos, no meio dessa tempestade maldita, que veio com o vírus da coroa, mas que espetou nossa alma em um nível bem mais profundo que as incômodas faltas de ar momentâneas. Fomos forçados a limpar nossa sujeira, a dividir nossa comida e a enxergar o próximo, que estava tão próximo que já nem notávamos sua presença…

E no meio deste dilema ganharemos a oportunidade de nos reinventarmos um alguém pouquinho melhor, e teremos, ainda, a oportunidade de agradecer por termos sobrevivido a nós mesmos depois dessa quarentena, em que somos obrigados a nos olhar de forma crua, visceral e verdadeira.

Fui! (Rezar…)

Cris Coelho

A minha literatura é livre de estereótipos, padrões e convenções. Ela entrega poesia onde há cotidiano. E renova minha fé em mim e no mundo. Cris Coelho, Escritora & Poetisa