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Depois da Tempestade…

maio 2, 2019

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Vi muitas pessoas passando; vi brigas e desencontros… vi a chegada dos pequenos novos membros da minha família e vi a alegria que espalhavam ao correr no chão que tanto contemplou nossas dores e desesperos. Vi suas graças e suas manhas, sem medida e proporção; vi o entusiasmo deles quando admiravam uma partida de futebol ou quando contemplavam um pedaço do bolo dela. Vi também a aflição da matriarca dos meus, quando percebeu que seu tempo já estava se esgotando; vi a tristeza tomar conta do semblante sereno e o sorriso que já começava a brigar para se fazer presente…

Vi o rosto de preocupação dos que amam incondicionalmente, cada vez que ela saía, cada vez que ela voltava cambaleando e cada vez que ela não voltava. Vi a expressão de alívio nas muitas vezes em que, nas manhãs seguintes, ela chegava sorrateira, e vi também a raiva que os acometia, cada vez que percebiam que dependiam da sorte para salvar seu bem mais precioso. Vi os momentos de cobrança, de reza e de agradecimento, até o dia em que ela não voltou mais…

Vi o rosto da matriarca enrijecer quando o silêncio tomou conta, quando os programas de domingo se tornaram meros coadjuvantes para as horas que passaram a caminhar em passos lentos. Vi a nuvem se tornar grande e pesada, as janelas serem fechadas às pressas e a água invadir os espaços possíveis para jorrar um pouco mais de dor pelas frestas oportunas, que deveriam ter sido consertadas, mas que eram negligenciadas… assim como as dores escondidas e os traumas mal resolvidos nesse enredo complicado chamado “história de vida”.

Vi os cumprimentos dos que estavam em luto, vi sua luta para se levantar e seguir adiante no dia que sobrevivera à sua ausência doída. Vi o desânimo no seu olhar, a falta de tempero na comida que já não exalava o mesmo cheiro; vi o passar das horas se estender em uma tarde sem fim, em lampejos de condolência e otimismo, salvaguardados em instantes que misturavam egoísmo e sobrevivência. 

Vi, finalmente, a tempestade ir embora. Vi as janelas serem abertas novamente e a mesa ser posta com vontade. Vi os novos entrarem com fome e vontade, vi seus complementos e suas versões do que representa a família de cada um. Vi a vida de várias gerações se misturar entre os que correm por este piso desgastado e os que admiram a sua corrida, do lado de cá ou mesmo do lado de fora desta janela, sempre que a tempestade vai embora…

Fui! (Contemplar a maravilha que é a vida deles…)

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