Skip to content

Canção da Alvorada

junho 11, 2018

Em incessantes minutos eles me convidam para partir, sou levada ao extremo da minha ignorância para me ater a um segundo sem paz ou penitência. Um segundo de nada, seguido por intercaladas noites de frio que se desfazem com o anúncio da alvorada.

É o remédio das almas que adormece o coração dos pecadores, que refugia o mal dentro de si e expulsa as mágoas do horizonte de quem quer ver além. É este plano que rompe o silêncio dos vivos e que transita junto a estes o bem que está à espreita, mas que só alcançamos com vontade.

Parto em minutos que se cansam de esticar, em memórias oportunas de tudo o que é verdadeiro e impensado; sou forte o suficiente para levantar, mas não sei se quero seguir adiante com novos amigos a me rodear.

Preciso de calma para deixar este corpo que me pede constantemente para ficar, preciso de coragem para dizer adeus e de mais um pouco de tempo para me acostumar.

Na alvorada, as almas se levantam e seguem em direção ao nada, que está cheio de vida e cheio de paz, em um vasto espaço de tempo, que é inóspito e sereno. Não me nego a seguir com elas, mas escolho entrar por alguns segundos em um espaço reservado para a minha alma, um cantinho que é só meu e que esteve trancado por tanto tempo. Relembro as dores e as angústias, vejo o meu eu tão pequeno e inocente. Recolho as mazelas que ficaram pelo caminho, limpo o espaço que meus pés percorreram e percebo as marcas que ficaram pelo caminho. As cicatrizes que deixem em mim e nas pessoas que cruzaram a minha estrada.

Não consigo enxergar além de mim a culpa que me é cotidiana, talvez porque já esteja curada, talvez porque já não importe mais. Me escondo neste rincão com a promessa de não fazer barulho. Tento fingir que ainda tenho tempo e que a alvorada não vai chegar tão cedo. Tento aliviar o peso das minhas pernas dentro de algum pilar sólido no sótão empoeirado da minha mente, mas o que vejo são estruturas que estão prestes a cair, em um palácio de ilusões que vai desmoronar a qualquer momento, assim que a alvorada chegar.

Então me levanto e saio em direção a esse nada, cheio de novas oportunidades e de novas formas de fazer o mesmo. Sigo em direção à minha nova vida, do lado de lá e também aqui. Em todos os lugares possíveis, os que já percorri e os que vou percorrer.

Porque agora que a alvorada chegou não sou mais “eu” apenas. Agora sou um “eu” novo, um “eu” onipresente e eterno.

Salve!

Fui! (viver enquanto não chega a minha alvorada…)

No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: