A Sexualidade no Pós-pandemia

Depois de muito tempo buscando encontrar o significado de se sentir completo, o ser humano alcançou sua melhor tradução durante o enclausuramento forçado do seu corpo, com sua consequente libertação filosófica, na maior parte das vezes.

O que aconteceu foi que, durante a pandemia, muitas pessoas que buscavam entender muitas coisas sobre si, dentre elas, o que as motiva sexualmente ou qual é a sua verdadeira identidade de gênero, conseguiram, finalmente, identificá-las. A busca pelo autoconhecimento tornou-se visceral e o contorno limitante sobre a própria felicidade tornou-se tão fino que pôde, pela primeira vez, ser rompido, em busca de algo mais verdadeiro no conjunto de coisas que definem um ser humano.

As saídas dos armários foram providenciais e a nova forma de solicitar os dados relativos a orientação sexual de cada pessoa foi, aos poucos, sendo incorporada como a conduta padrão para perguntar sobre qual gênero a pessoa se identifica e não mais qual é o seu gênero. Não obstante, várias empresas ainda adotam o modo arcaico de perguntar e interagir com a nova sociedade surgida durante a pandemia.

Essa nova sociedade define sua identidade de gênero, assim como suas preferências sexuais, como ativos valiosos da construção da parcela que enxergam de si, mas, apenas “um pouco”, porque o “todo” ninguém consegue realmente acessar…

Segundo Mariela Duarte, psicóloga e jornalista transexual, o cenário da sexualidade no mundo pós-pandemia será bem diferente do mundo que conhecíamos até 2019: “o mundo nunca foi tão inclusivo e as pessoas nunca foram tão sexuais como agora. Percebo que as inúmeras possibilidades de identidade e orientação de gênero elencadas e explicadas pelos meios digitais oferecem uma vasta oportunidade para que cada um encontre o seu lance.”

Com base nos registros do Google Trends, nos últimos 12 meses no Brasil, a procura por termos como “identidade de gênero”, “expressão de gênero” e “orientação sexual” aumentou significativamente durante a pandemia, tendo tido, um incremento de 60% para o termo “identidade de gênero significado”, 90% para o termo “gênero sexual” e incríveis 200% para o termo “cis gênero”. Esses dados demonstram um recorte da busca por maior informação de uma população que começou a sair das suas bolhas com o advento da pandemia e sua consequente abertura para novas possibilidades.

No quesito sexualidade este fluxo também é observado com as mudanças de comportamento sugeridas pelos acessos e busca de conteúdo erótico nos streamings. Segundo Roy LP, diretor-geral da LFV, que administra a plataforma de streaming “Quente Club”, fruto da união das produtoras Xplastic e SafadaTV, o mercado de filmes pornôs, durante a pandemia, passou a focar mais na diversidade de conteúdo erótico, estendendo a possibilidade de prazer a um público que estava (e está) em plena descoberta da sua própria sexualidade: “A pandemia mudou a forma de consumo. As pessoas estão dispostas a experimentar novos conteúdos”, diz.

E a conclusão que chego é que, com tantas narrativas novas em um enredo já contado mais de mil vezes, temos a oportunidade de, finalmente, nos reinventarmos em nossa sexualidade, identidade e orientação de gênero, em um cenário jamais visto antes. Podemos optar por assumir sermos nós, de verdade; ou, ao menos, podemos ter a opção de buscar essa identidade, reafirmando-a ou modificando-a, explorando todas as possibilidades existentes, se assim entendermos que é o que desejamos.

Porque o que nos define e nos emociona é, pela primeira vez, algo a ser considerado e, mais ainda, respeitado.

Cris Coelho

Cris Coelho

A minha literatura é livre de estereótipos, padrões e convenções. Ela entrega poesia onde há cotidiano. E renova minha fé em mim e no mundo. Cris Coelho, Escritora & Poetisa