Pequenas Partículas

Pequenas são as partículas que vêm e que se vão em um turbilhão de pensamentos inconstantes que tenho sobre meu passado e as incertezas sobre o meu futuro, pois se hoje sou mais madura e consciente do que quero, também sou infinitamente mais pessimista sobre as oportunidades que me levariam mais longe ou as verdades que me fariam mais alegre.

Encontro razão nas partículas pesadas que insistem em chamar minha atenção, assim como minha alma complexa e machucada por anos de incompreensão e carência. Ao olhar para o lado, vejo as partículas leves e descontraídas do meu vizinho, que seguem seu caminho rumo ao universo de todas as partículas agregadoras e lindamente homogêneas, mas, realmente, não me vejo dentro deste conjunto de boas intenções, pois a cadência das minhas músicas vibram sempre em uma frequência mais alta e irregular…

Aproveito para deliciar-me com as belezas infames que ofuscam minha visão sobre a vida cotidiana, tornando-a turva e nebulosa, e que invadem meu mundo de uma forma mais dolorida que a dos meus amigos, que possuem uma visão um pouco mais superficial e leve da atmosfera que nos envolve.

Saúdo, enfim, as partículas maiores e peço licença para admirar as pequenas complexas, que se acumulam na vasta área de lazer da minha ignorância sobre o tempo, a vida e seus milhões de derivados. Ocupo-me de mim em um instante de certezas, onde projeto meu futuro exatamente da forma que imaginei há muitos anos, sem nenhuma partícula cinza e todas com um tom bem mais alto que o do meu vizinho rabugento…

Fui! (Reunir minhas partículas pequenas, pesadas e únicas…)

O Enterro dos Sonhos

Tanto tempo planejei minha vida com eles, e desde sempre quis estar dentro de seus braços acolhedores e indubitavelmente fascinantes… planejei meu futuro com as cenas perfeitas dos meus sonhos mais difíceis de serem alcançados, vivenciei a experiência de ser ainda mais próspera na companhia dos meus amigos caridosos, que me entregariam exatamente a dose que eu precisava para ser infinitamente feliz, e entendi que minha vida seria algo bem próximo do ideal que eu havia construído no meu imaginário criativo.

Fui paciente durante todo o tempo em que testemunhava a mudança das estações, as comemorações em datas marcantes e a passagem do tempo vivenciada em cada fio de cabelo que perdia sua cor natural. Entendi que as coisas não acontecem exatamente na hora em que desejamos e que, se buscarmos com vontade, elas estarão ali, na próxima curva, prontas para serem abertas e degustadas em uma única mordida gulosa. 

Rezei a oração que me ensinaram e fiz quase tudo que podia para vê-los vivos no meu futuro. Não excedi, porém, a linha tênue que divide minha vontade da loucura que seria abandonar meu propósito para abraçar sonhos particulares e genuinamente egoístas. Fiz o que era possível e o que era justo dentro do meu tempo e da minha preguiça. E desejei por muito tempo que a graça divina brindasse meu caminho com as vontades que tinham som de desejos e eram escritas na forma de sonhos.

Virei tantas curvas quantas foram possíveis e perdi as contas de quantas vezes achei que encontraria meus sonhos me esperando ansiosos para que eu os desfrutasse. Fui ingênua ao acreditar que os Santos me dariam aquilo que talvez não me pertencesse e cheguei a ter raiva dos discípulos que vivem do outro lado da ponte, por não me darem o que eu tanto queria.

E, ao passar pela última vez na estrada de terra batida que guardava meus pedidos e desejos, parei e ajoelhei-me em frente aos sonhos que nunca se realizaram. Libertei-os de toda a minha ganância e deixei que seguissem livres para um outro alguém, um que os merecesse ou que os quisesse com verdadeiro afinco. Entreguei um pouco de mim durante a nossa despedida, deixei que levassem parte da minha inocência e recebi de volta um resumo sobre a história da minha vida, tão cheia de sonhos que nunca sonhei, mas que me fizeram muito feliz também…

Fui! (Agradecer e sonhar de novo…)