Meu Eu Mais Autêntico

Por tanto tempo busquei me encontrar; por tanto tempo investi em coisas que me levassem para mais perto de mim, como roupas da moda, cortes de cabelo, diferentes propostas de trabalho e amores ideais para acomodar minhas aflições mais urgentes…

Por esse longo tempo busquei a minha melhor versão, a mais magra, a mais bela, a mais adequada. Por tanto tempo quis encontrar encontrar paz com o meu eu mais certo, aquele mais pleno e vencedor e, durante todo esse tempo, tentei enganar minha mente dizendo que estava tudo bem, que eu era quase perfeita, ainda que na minha visão míope…

Encontrei, anos depois, uma versão bem mais leve e autêntica de mim, que comungava minhas vontades com a essência que eu carregava na alma: diferente, curiosa e forte.

Demorou muito para entender o verdadeiro significado de ser autêntica, e, ainda que com ressalvas, resolvi ser fiel às dores e excessos que carrego no corpo cheio de cicatrizes e memórias prazerosas; entreguei minhas culpas ao abismo do esquecimento, para onde não posso voltar e de onde parti com novos amigos chamados esperança, plenitude e amor próprio.

E depois de tanto tempo posso, finalmente, olhar-me nua na frente do meu espelho sem reclamar de nada que vejo, e percebo, quase sem querer, que minha alma dança mais leve dentro do meu corpo, em doses plenas de harmonia e em compassos de liberdade.

Fui! (Me enxergar de verdade…)

O Enterro dos Sonhos

Tanto tempo planejei minha vida com eles, e desde sempre quis estar dentro de seus braços acolhedores e indubitavelmente fascinantes… planejei meu futuro com as cenas perfeitas dos meus sonhos mais difíceis de serem alcançados, vivenciei a experiência de ser ainda mais próspera na companhia dos meus amigos caridosos, que me entregariam exatamente a dose que eu precisava para ser infinitamente feliz, e entendi que minha vida seria algo bem próximo do ideal que eu havia construído no meu imaginário criativo.

Fui paciente durante todo o tempo em que testemunhava a mudança das estações, as comemorações em datas marcantes e a passagem do tempo vivenciada em cada fio de cabelo que perdia sua cor natural. Entendi que as coisas não acontecem exatamente na hora em que desejamos e que, se buscarmos com vontade, elas estarão ali, na próxima curva, prontas para serem abertas e degustadas em uma única mordida gulosa. 

Rezei a oração que me ensinaram e fiz quase tudo que podia para vê-los vivos no meu futuro. Não excedi, porém, a linha tênue que divide minha vontade da loucura que seria abandonar meu propósito para abraçar sonhos particulares e genuinamente egoístas. Fiz o que era possível e o que era justo dentro do meu tempo e da minha preguiça. E desejei por muito tempo que a graça divina brindasse meu caminho com as vontades que tinham som de desejos e eram escritas na forma de sonhos.

Virei tantas curvas quantas foram possíveis e perdi as contas de quantas vezes achei que encontraria meus sonhos me esperando ansiosos para que eu os desfrutasse. Fui ingênua ao acreditar que os Santos me dariam aquilo que talvez não me pertencesse e cheguei a ter raiva dos discípulos que vivem do outro lado da ponte, por não me darem o que eu tanto queria.

E, ao passar pela última vez na estrada de terra batida que guardava meus pedidos e desejos, parei e ajoelhei-me em frente aos sonhos que nunca se realizaram. Libertei-os de toda a minha ganância e deixei que seguissem livres para um outro alguém, um que os merecesse ou que os quisesse com verdadeiro afinco. Entreguei um pouco de mim durante a nossa despedida, deixei que levassem parte da minha inocência e recebi de volta um resumo sobre a história da minha vida, tão cheia de sonhos que nunca sonhei, mas que me fizeram muito feliz também…

Fui! (Agradecer e sonhar de novo…)