Respirar

Às vezes, tudo e só o que precisamos, é RESPIRAR. 

Respirar com calma, com profundidade. Respirar antes de responder. Respirar para pensar melhor. Precisamos respirar para ventilar e circular a energia que está aí, estacionada. Precisamos respirar para poder enfrentar os fantasmas que nos perseguem. 

Respirar para viver, em seu sentido mais profundo da palavra. “Respirar para viver”, que é bem diferente de “respirar para não morrer”. 

Respirar, só respirar. Às vezes, e quase sempre também, é o que precisamos para acordar. Precisamos respirar para rever nossos conceitos, para aceitar darmos um passo para trás, para nos permitirmos pedir desculpas. Respirar para mudar o que está errado, e o que está certo também, mas que podia estar melhor. Respirar para melhorar. 

Respirar para permitir-nos também nada fazer, em circunstância alguma. Respirar para sentir nosso corpo. Respirar para nos ouvir. Respirar para nos encontrarmos de novo, em algum ponto perdido em que ficamos sufocados e esquecemos de respirar…

Fui! (Respirar para me buscar…)

* Crônica publicada originalmente em 2016, no site da Maria Scarlet.

O Enterro dos Sonhos

Tanto tempo planejei minha vida com eles, e desde sempre quis estar dentro de seus braços acolhedores e indubitavelmente fascinantes… planejei meu futuro com as cenas perfeitas dos meus sonhos mais difíceis de serem alcançados, vivenciei a experiência de ser ainda mais próspera na companhia dos meus amigos caridosos, que me entregariam exatamente a dose que eu precisava para ser infinitamente feliz, e entendi que minha vida seria algo bem próximo do ideal que eu havia construído no meu imaginário criativo.

Fui paciente durante todo o tempo em que testemunhava a mudança das estações, as comemorações em datas marcantes e a passagem do tempo vivenciada em cada fio de cabelo que perdia sua cor natural. Entendi que as coisas não acontecem exatamente na hora em que desejamos e que, se buscarmos com vontade, elas estarão ali, na próxima curva, prontas para serem abertas e degustadas em uma única mordida gulosa. 

Rezei a oração que me ensinaram e fiz quase tudo que podia para vê-los vivos no meu futuro. Não excedi, porém, a linha tênue que divide minha vontade da loucura que seria abandonar meu propósito para abraçar sonhos particulares e genuinamente egoístas. Fiz o que era possível e o que era justo dentro do meu tempo e da minha preguiça. E desejei por muito tempo que a graça divina brindasse meu caminho com as vontades que tinham som de desejos e eram escritas na forma de sonhos.

Virei tantas curvas quantas foram possíveis e perdi as contas de quantas vezes achei que encontraria meus sonhos me esperando ansiosos para que eu os desfrutasse. Fui ingênua ao acreditar que os Santos me dariam aquilo que talvez não me pertencesse e cheguei a ter raiva dos discípulos que vivem do outro lado da ponte, por não me darem o que eu tanto queria.

E, ao passar pela última vez na estrada de terra batida que guardava meus pedidos e desejos, parei e ajoelhei-me em frente aos sonhos que nunca se realizaram. Libertei-os de toda a minha ganância e deixei que seguissem livres para um outro alguém, um que os merecesse ou que os quisesse com verdadeiro afinco. Entreguei um pouco de mim durante a nossa despedida, deixei que levassem parte da minha inocência e recebi de volta um resumo sobre a história da minha vida, tão cheia de sonhos que nunca sonhei, mas que me fizeram muito feliz também…

Fui! (Agradecer e sonhar de novo…)