O Ato Final

E por fim, despeço-me de todos que colaboraram para minha redenção, aquela que me quebrou em vários pedaços não terminados de mim mesma, em busca de um momento de equilíbrio.

Recobro minha consciência em busca de consolo, em busca de conforto e em busca de todos os aplausos que nunca vieram, pelo menos não da forma como eu os imaginei… sigo em busca daquele algo a mais e encontro razões para ir em busca de mim, em todos os instantes em que consigo reconhecer-me, plena, inteira, constante.

Sou eu, em uma imensidão de mim, que agora grita para fazer parar a enorme locomotiva que sustenta minha teimosia e que me mantém imersa dentro de toda a atmosfera que construí com as rugas de expressão, que sorriem faceiras com meu desgaste físico, e que compactuam com as cavidades abertas do meu já flagelado corpo, resultado dos venenos emocionais que fiz minha alma se entorpecer no decorrer dessa enorme volta.

Entendo, finalmente, que meu fim está próximo, mas recuso-me a ir embora sem antes saudar os que conquistei, para impregnar com meu perfume afrodisíaco suas vidas incompletas de tudo que remete a mim, e em um ato de egoísmo puro e egocentrismo evidente, faço com que cheirem minha essência com toda a vontade que puderem, para que sintam minha energia circular perene em suas veias fortes, cheias de independência, mas com certa subserviência ao meu ser absoluto.

E, quando meu nome já não for mais lembrado de forma corriqueira, encarregarei-me de voltar em um suspiro, de uma forma sorrateira e única, perfazendo o caminho que eu mesma jurei por tantas vezes não mais cruzar, mas que, ainda assim, tornar-se-á irresistível demais para ignorar.

E em meu Ato Final, verei a luz que me envolveu por tanto tempo, que estava imersa nos cantos opostos e esquinas perdidas, mas que sempre foi forte o suficiente para manter-me viva.  Verei minha Luz e a abraçarei com toda força que puder, e irei, simplesmente, “Ao Seu Encontro”; mas deixarei, porém, que um pouco de mim permaneça por aqui, neste pedaço de terra que chamamos de lar, onde habitam aqueles por quem vale a pena encenar esta peça.

Fui! (Receber meus aplausos…)

Cris Coelho

A minha literatura é livre de estereótipos, padrões e convenções. Ela entrega poesia onde há cotidiano. E renova minha fé em mim e no mundo. Cris Coelho, Escritora & Poetisa