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Recordações Insubstituíveis…

setembro 4, 2018

Minha casa ardeu de dor e desmoronou ali, bem na sua frente.

Enquanto você priorizava as futilidades da sua vida, era eu quem estava ali, esquecida e envolta em várias dívidas. Você não se lembrou de mim, não cuidou do patrimônio que era seu e do mundo todo. Não me deu valor; não me deu recursos para que eu continuasse a viver plena, como costumava ser nos tempos áureos da minha vida próspera.

Você se esqueceu de mim e das alegrias que eu poderia continuar a dar, sempre que você fosse me visitar. 

Não te pedi luxo nem nada em especial. Pedi apenas que você me respeitasse, para que assim eu pudesse continuar a entregar meu amor na forma de recordações insubstituíveis.

Queria poder dizer que ainda estou aqui, mas minha alma, por mais que tente, jamais conseguirá sobreviver ao inferno que destruiu meu corpo. Eu jamais sobreviverei a você e sua corrupção sem limites.

Eu estou morta, virei cinzas depois do incêndio que destruiu cada parte do meu corpo. Mas meu povo, aquele que me amava, continuará de pé, pronto para reconstruir a casa que um dia foi minha. Pronto para refazer o caminho que um dia foi trilhado por seus ancestrais. Pronto para defender a memória do que é deles, e não seu.

Fui! (Construir uma nova história…)

* Em Luto pela morte do Museu Histórico Nacional

Sua Brisa…

agosto 27, 2018

Andando por essa estrada vazia, percebo que voltei ao ponto de partida. Escuto vozes por todos os lados e tento me lembrar de como era a vida quando você ainda estava aqui… me vejo tão pequeno que quase não me reconheço! Sou eu quem deveria dizer adeus de forma definitiva, mas não consigo parar de pensar em como meu sorriso ficava grande ao ouvir suas piadas e em como meus olhos ficavam molhados cada vez que percebia que nosso tempo estava terminando.

Voltei para te dizer “oi”, mas sei que você não vai escutar daí de cima. Então resolvo fazer um gesto para tentar chamar sua atenção, mas você continua sem responder ao meu chamado. Dou uma volta em torno da casa de tijolos e tento entrar pelos fundos, mas a maçaneta está presa. Entendo, por fim, que tenho que seguir meu caminho. E, enquanto ando, sinto uma leve brisa acariciar minha face, marcada em parte, pela dor da saudade que tenho de você; o vento que sopra suave abraça meu corpo como se eu ainda tivesse sete anos de idade. Ele me diz, sussurrando, o quanto você me ama e o quanto te custa não me acompanhar desta vez.

Devolvo o sopro de esperança que ganhei com o ar quente que sai da minha alma. Entrego meu amor à frequência que me acompanha e peço que enderece a você meu beijo de saudade, aquele que explica o porquê da minha visita.

Fui! (sentir o vento me beijar…)

Meu Filho Fora do Normal

agosto 22, 2018

Meu filho nunca foi normal, se normal for o conceito que todos entendem por “adequado”. Não, ele nunca se enquadrou, nunca se ajustou ao que buscávamos como comportamento natural de um menino de 4, 7 ou 10 anos. Mas a verdade é que tampouco tínhamos a noção exata do que buscávamos.

Ele nunca seguiu um padrão específico que poderia transitar entre o esportista ou o nerd. Ele nunca se “encaixou” em padrão nenhum.

Meu filho sempre me afrontou com a sua forma irreverente e única. Ele conseguiu me fazer repensar meus próprios paradigmas cada vez que o percebia mais gentil do que deveria, cada vez que o observava mais livre do que poderia e cada vez que o encontrava mais feliz do que lhe seria permitido.

Ele me desafiou a amar um ser completamente fora das minhas concepções, e refez, na minha lista, a prioridade do que antes seria considerado avulso.

Meu filho veio ao meu mundo para me ensinar o verdadeiro conceito da palavra que eu tanto amava e não entendia: “liberdade”. Porque a essência do que busco e preconizo em minha literatura pouco ortodoxa é justamente a quebra das barreiras que sustentam esse muro tão perfeito, chamado “padrão”.

E meu filho, quase sem querer e totalmente sem estratégia e conhecimento, me fez repensar o que eu achava que sabia demais…

Fui! (Admirar a maravilha que é vê-lo crescer fora dessa caixa…)

 

A Quarta Nota

agosto 19, 2018

1,2,3… e 4. Tudo que termina em três tem mais graça, samba melhor com a letra da música. Mas o que fazer se eu gosto assim? Gosto do quarto item, aquele que desconcerta, que quebra a sintonia, que destoa e finge que não entendeu.

Gosto dele, do orgasmo sem dono, daquele que vem sem nome e sem classificação. Gosto dos rompantes sem sentido e da calmaria mansa que insiste em me encontrar na esquina da minha cama, aquela mesma que me acolhe as dores e as tentações de uma vida real.

Sou eu, em uma versão mais ousada, que grita debaixo de tantas camadas de maquiagem, a maravilha que é gostar de si própria. E não me importo de verdade se você, ou eles, não querem me acompanhar nesse passeio, que é tão curto, mas tão intenso quando visto através da escuridão dos meus óculos. 

Volto nos 3 minutos para pensar que um quarto talvez fosse mesmo desnecessário, mas detenho-me rindo até o final da caminhada quando vejo que esse último me tirou a mesmice do equilíbrio e bagunçou minha vida perfeita. 

Agradeço ao “quarto item” e a todos os outros que continuam a preencher os tropeços da minha confusa rotina, que se torna tão densa e tão encantadora, cada vez que reconheço que tenho mais motivos para buscar a imperfeição dos meus passos nessa caminhada chamada vida…

Fui! (buscar minha quarta nota nos desconcertos do meu eu… )

 

“Cídio”

agosto 8, 2018

feminicidioporms

Vivo nessa bolha gigante que sustenta a minha vida. Vivo aqui dentro enquanto posso e enquanto tiver forças para sobreviver a você… sou um reflexo do que não deveria existir, mas existe. Sou a prova da sua fraqueza, do egoísmo constante que você insiste em propagar pelo mundo com os dizeres: “meu direito”.

Sou eu quem precisa de cuidados, mas você se coloca à frente. Você não pensa um segundo sequer no quanto vai me machucar e no quanto vai custar o sofrimento que você vai colocar no meu caminho. Você não me quer ao seu lado e também não quer me dar a oportunidade de me deixar seguir adiante para, talvez, encontrar consolo nos braços de um outro alguém.

Respiro mais rápido em busca do ar que nunca vou conseguir absorver. Busco Deus onde quer que Ele esteja para me proteger de quem deveria cuidar de mim. Imploro pela vida que não tive e entendo que minha hora está chegando. 

Vejo meus sonhos se despedaçando em grandes promessas não cumpridas e sinto todas as emoções que me fariam degustar a graça que é viver passarem por mim como memórias do que eu não tive e jamais terei.

Rezo por meus pais e peço perdão por não ter conseguido lhes mostrar o gosto do orgulho e do regozijo da vida em cada vez que eu apoiasse minhas mãos sobre as deles, em cada vez que eu contasse sobre o meu dia, em cada vez que eu voltasse para casa.

Agora fecho os olhos e espero pelo meu cídio. Esse é o nome do senhor da morte, daquele que nos busca sempre que a nossa hora é escolhida, por nós ou pelos nossos amores…

Fui! (morrer pelo “feminicídio do aborto“, que mata muitas mulheres que não tiveram a chance de viver nem um dia sequer…)

Sua Benção

agosto 7, 2018

Depois de tantos passos, de tantos encontros e de tantas reviravoltas na vida, volto para você com um único pedido: sua benção. Peço que você me compreenda, que entenda que tudo que fiz foi por mim, para me sentir melhor com a minha vida, mesmo sabendo que ela é mais importante para você do que para mim…  


Sei que você ficou preocupada com alguns caminhos tortos que tomei, mas saiba que eles foram providenciais para chegar até aqui, na rua enlamaçada a e cheia de desvios. E se você não se contentou com os sapatos que eu nunca calcei foi porque você sabia que em algum momento eu ia me machucar. Sim, eu me machuquei e meus pés ficaram cheios de feridas, mas foi bom saber que eu tinha esse par de sapatos guardados; e, ainda que pequenos, ainda que desbotados, foram eles que me lembraram do conforto que existe no seu colo.


Não aprendi ainda a obedecer suas ordens, mas hoje consigo entender seu amor exagerado, cheio de cuidados extremos e afetos desconcertantes. Aprendi a escutar sua voz quando a chuva pesada insistia em cair sobre meus ombros descobertos. Aprendi a te ouvir quando você já não estava ao meu lado para dizer coisa alguma, porque o que havia sido dito foi adiante com o vento; não se apagou com as águas que tudo lavam e que também não conseguiram lavar aquela mancha de batom do seu beijo carinhoso, no dia em que cruzei por aquela porta…


E se você me perguntar se vou caminhar descalça de novo, te respondo que sim. Vou descalça em busca do meu destino porque ao final da estrada sei que você estará lá, segurando meus sapatos e pronta para me dar a sua benção novamente.


Fui! (buscar sua benção, descalça e debaixo da minha chuva…)

 

Minha Casa

julho 14, 2018

mao

Depois de todas as tormentas que enfrentei, depois de todos os caminhos que percorri, foi em seu colo que senti que havia chegado “em casa”. E quando entrei e não te encontrei, me senti igualmente segura, pois o seu cheiro ainda impregna minha vida, seu calor ainda esquenta minhas mãos e seu olhar, sempre vigilante, ainda me conforta. 

É você, em um milhão de definições diferentes que encontro quando procuro meu cobertor de infância, aquele que tem as lembranças mais doces e divertidas, de um tempo que não voltará jamais, mas que me faz todos os dias recordar como é ser cuidada de verdade.

Não me esqueço, um segundo sequer, de rezar a oração que você me ensinou. Não me esqueço de olhar para as partes mais óbvias de todo texto para tentar encontrar algum sentido escondido entre as vírgulas e os pontos finais. Não me esqueço de você e, mais presente ainda, é a lembrança das suas mãos ásperas segurando meus dedos frágeis e pequenos. 

E todas as vezes em que sinto medo, me protejo com as lembranças que tenho de como eu me sentia quando estava ao seu lado; me lembro que permaneço com você ao meu lado, mesmo sem te ver. Me lembro de senti-lo, e sinto a proteção que me abraça e me aconchega nessa energia que é inexplicável, mas ao mesmo tempo real.

Fui! ( buscar suas mãos…)