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Meu Filho Fora do Normal

agosto 22, 2018

Meu filho nunca foi normal, se normal for o conceito que todos entendem por “adequado”. Não, ele nunca se enquadrou, nunca se ajustou ao que buscávamos como comportamento natural de um menino de 4, 7 ou 10 anos. Mas a verdade é que tampouco tínhamos a noção exata do que buscávamos.

Ele nunca seguiu um padrão específico que poderia transitar entre o esportista ou o nerd. Ele nunca se “encaixou” em padrão nenhum.

Meu filho sempre me afrontou com a sua forma irreverente e única. Ele conseguiu me fazer repensar meus próprios paradigmas cada vez que o percebia mais gentil do que deveria, cada vez que o observava mais livre do que poderia e cada vez que o encontrava mais feliz do que lhe seria permitido.

Ele me desafiou a amar um ser completamente fora das minhas concepções, e refez, na minha lista, a prioridade do que antes seria considerado avulso.

Meu filho veio ao meu mundo para me ensinar o verdadeiro conceito da palavra que eu tanto amava e não entendia: “liberdade”. Porque a essência do que busco e preconizo em minha literatura pouco ortodoxa é justamente a quebra das barreiras que sustentam esse muro tão perfeito, chamado “padrão”.

E meu filho, quase sem querer e totalmente sem estratégia e conhecimento, me fez repensar o que eu achava que sabia demais…

Fui! (Admirar a maravilha que é vê-lo crescer fora dessa caixa…)

 

A Quarta Nota

agosto 19, 2018

1,2,3… e 4. Tudo que termina em três tem mais graça, samba melhor com a letra da música. Mas o que fazer se eu gosto assim? Gosto do quarto item, aquele que desconcerta, que quebra a sintonia, que destoa e finge que não entendeu.

Gosto dele, do orgasmo sem dono, daquele que vem sem nome e sem classificação. Gosto dos rompantes sem sentido e da calmaria mansa que insiste em me encontrar na esquina da minha cama, aquela mesma que me acolhe as dores e as tentações de uma vida real.

Sou eu, em uma versão mais ousada, que grita debaixo de tantas camadas de maquiagem, a maravilha que é gostar de si própria. E não me importo de verdade se você, ou eles, não querem me acompanhar nesse passeio, que é tão curto, mas tão intenso quando visto através da escuridão dos meus óculos. 

Volto nos 3 minutos para pensar que um quarto talvez fosse mesmo desnecessário, mas detenho-me rindo até o final da caminhada quando vejo que esse último me tirou a mesmice do equilíbrio e bagunçou minha vida perfeita. 

Agradeço ao “quarto item” e a todos os outros que continuam a preencher os tropeços da minha confusa rotina, que se torna tão densa e tão encantadora, cada vez que reconheço que tenho mais motivos para buscar a imperfeição dos meus passos nessa caminhada chamada vida…

Fui! (buscar minha quarta nota nos desconcertos do meu eu… )

 

“Cídio”

agosto 8, 2018

feminicidioporms

Vivo nessa bolha gigante que sustenta a minha vida. Vivo aqui dentro enquanto posso e enquanto tiver forças para sobreviver a você… sou um reflexo do que não deveria existir, mas existe. Sou a prova da sua fraqueza, do egoísmo constante que você insiste em propagar pelo mundo com os dizeres: “meu direito”.

Sou eu quem precisa de cuidados, mas você se coloca à frente. Você não pensa um segundo sequer no quanto vai me machucar e no quanto vai custar o sofrimento que você vai colocar no meu caminho. Você não me quer ao seu lado e também não quer me dar a oportunidade de me deixar seguir adiante para, talvez, encontrar consolo nos braços de um outro alguém.

Respiro mais rápido em busca do ar que nunca vou conseguir absorver. Busco Deus onde quer que Ele esteja para me proteger de quem deveria cuidar de mim. Imploro pela vida que não tive e entendo que minha hora está chegando. 

Vejo meus sonhos se despedaçando em grandes promessas não cumpridas e sinto todas as emoções que me fariam degustar a graça que é viver passarem por mim como memórias do que eu não tive e jamais terei.

Rezo por meus pais e peço perdão por não ter conseguido lhes mostrar o gosto do orgulho e do regozijo da vida em cada vez que eu apoiasse minhas mãos sobre as deles, em cada vez que eu contasse sobre o meu dia, em cada vez que eu voltasse para casa.

Agora fecho os olhos e espero pelo meu cídio. Esse é o nome do senhor da morte, daquele que nos busca sempre que a nossa hora é escolhida, por nós ou pelos nossos amores…

Fui! (morrer pelo “feminicídio do aborto“, que mata muitas mulheres que não tiveram a chance de viver nem um dia sequer…)

Sua Benção

agosto 7, 2018

Depois de tantos passos, de tantos encontros e de tantas reviravoltas na vida, volto para você com um único pedido: sua benção. Peço que você me compreenda, que entenda que tudo que fiz foi por mim, para me sentir melhor com a minha vida, mesmo sabendo que ela é mais importante para você do que para mim…  


Sei que você ficou preocupada com alguns caminhos tortos que tomei, mas saiba que eles foram providenciais para chegar até aqui, na rua enlamaçada a e cheia de desvios. E se você não se contentou com os sapatos que eu nunca calcei foi porque você sabia que em algum momento eu ia me machucar. Sim, eu me machuquei e meus pés ficaram cheios de feridas, mas foi bom saber que eu tinha esse par de sapatos guardados; e, ainda que pequenos, ainda que desbotados, foram eles que me lembraram do conforto que existe no seu colo.


Não aprendi ainda a obedecer suas ordens, mas hoje consigo entender seu amor exagerado, cheio de cuidados extremos e afetos desconcertantes. Aprendi a escutar sua voz quando a chuva pesada insistia em cair sobre meus ombros descobertos. Aprendi a te ouvir quando você já não estava ao meu lado para dizer coisa alguma, porque o que havia sido dito foi adiante com o vento; não se apagou com as águas que tudo lavam e que também não conseguiram lavar aquela mancha de batom do seu beijo carinhoso, no dia em que cruzei por aquela porta…


E se você me perguntar se vou caminhar descalça de novo, te respondo que sim. Vou descalça em busca do meu destino porque ao final da estrada sei que você estará lá, segurando meus sapatos e pronta para me dar a sua benção novamente.


Fui! (buscar sua benção, descalça e debaixo da minha chuva…)

 

Minha Casa

julho 14, 2018

mao

Depois de todas as tormentas que enfrentei, depois de todos os caminhos que percorri, foi em seu colo que senti que havia chegado “em casa”. E quando entrei e não te encontrei, me senti igualmente segura, pois o seu cheiro ainda impregna minha vida, seu calor ainda esquenta minhas mãos e seu olhar, sempre vigilante, ainda me conforta. 

É você, em um milhão de definições diferentes que encontro quando procuro meu cobertor de infância, aquele que tem as lembranças mais doces e divertidas, de um tempo que não voltará jamais, mas que me faz todos os dias recordar como é ser cuidada de verdade.

Não me esqueço, um segundo sequer, de rezar a oração que você me ensinou. Não me esqueço de olhar para as partes mais óbvias de todo texto para tentar encontrar algum sentido escondido entre as vírgulas e os pontos finais. Não me esqueço de você e, mais presente ainda, é a lembrança das suas mãos ásperas segurando meus dedos frágeis e pequenos. 

E todas as vezes em que sinto medo, me protejo com as lembranças que tenho de como eu me sentia quando estava ao seu lado; me lembro que permaneço com você ao meu lado, mesmo sem te ver. Me lembro de senti-lo, e sinto a proteção que me abraça e me aconchega nessa energia que é inexplicável, mas ao mesmo tempo real.

Fui! ( buscar suas mãos…)

Partituras Livres

julho 10, 2018

partituraslivres

Hoje percebo o quanto o tempo é nosso amigo. Ele nos ensina a aguardar, até último segundo, aquele em que já pensamos ser inútil, mas que ainda está lá. É o tempo, o senhor de todos os sons, dos mais agudos aos mais graves; é ele quem dita o caminho pelo qual a partitura da nossa vida vai se desenhando, e é ele que, sem pudor, nos convida a nos retirarmos, em hora providencial para a trilha sonora que ele construiu. 

Podia pensar que ele é um ser sem coração, que age por pura ambição, mas quando paro para escutar a partitura final que ele compôs, entendo que a perfeição nem sempre é entendida por nós, simples mortais do tempo escasso; a perfeição está no desajuste e nos desencontros que o tempo insiste em impor, em um gesto simples e quase irônico, quando nos tira o que jamais foi nosso, para brincar com nossa mente egoísta e nosso ego magistral.

É ele, o senhor Tempo, quem dita as façanhas da nossa pobre e ordinária existência; é ele quem nos diz quando e é ele quem nos impulsiona a ser livres, mas “livres” no tempo dele, é claro. 

E ao som dessas partituras feitas exclusivamente para mim, sigo dançando plena. Tenho orgulho da maior parte da coreografia, mas me envergonho de alguns passos errados, de posições um tanto constrangedoras para o espetáculo. E a cada queda, me levanto e me recomponho. E a cada parada, respiro. E a cada nova melodia, danço.

Fui! (escutar a maravilha que é a minha partitura…)

Mais Leve

junho 26, 2018

Caminho por esta estrada mais segura desde que deixei para trás os pensamentos sombrios sobre o destino dos meus. Troquei o peso das minhas incertezas pela leveza do meu hoje ao lado deles. Escolhi uma mochila mais informal, sem tantos detalhes, sem tantos dourados para adornar as minhas costas doídas; ao invés da elegância, preferi a simplicidade e a praticidade. Escolhi as cores mais claras para dizer sucintamente o que eu sinto, em um bom e básico português. As palavras saíram fluídas e fáceis, e formaram frases comuns, mas que dizem tanto, como um “eu te amo” ou “eu estou ao seu lado”.

E foi assim que descobri a graça que é viver. Sem esperar por mais, só mesmo agradecer pelo que chegou… foi assim, entre passos mal dados e escolhas difíceis que entendi que aquele abraço era muito mais que uma despedida; aquele abraço era um ritual. E sempre que me lembro dele penso na oração que inventamos, naquele hino especial que só pertence ao nosso time.

Porque as recordações ficam, apesar da história seguir. O caminho muda, mas os passos que foram dados ficam ali, eternizados para sempre nos instantes em que nos encontramos e vivemos juntos, tão cheios de bagagens inúteis e de dourados sem tanto propósito. As bagagens foram substituídas, a estrada foi asfaltada e nós envelhecemos. Perdemos um pouco de nós também, a cada despedida, a cada preocupação, a cada angústia vivida; mas ganhamos mais com a leveza que passou a nos acompanhar a partir daquela curva, a partir daquele abraço…

Fui! (trocar minha mochila por uma mais leve…)