Malandragem

Malandro dança conforme a música que toca e é amigo de choradeira quando a corda aperta. Se faz de rogado quando percebe a má fé dos outros jogadores e se safa para encontrar nas esquinas sorrateiras, aquelas velhas conhecidas de caminhada; as trata com cortesia, mas não as convida para irem à sua casa, pois amiga para ele é pinga, todas as outras ele devora…

Malandro que é malandro esconde o jogo e segura a melhor carta até fechar o jogo. Malandro não tem pressa, não tem apuro, não se desespera. Malandro planeja com cuidado, “escolhe”. Malandro não ama, se apaixona; não se deixa levar, conduz…

Todas nós temos um quê de malandro quando paramos para escolher, planejar, acertar; quando entendemos que não precisamos correr contra o tempo para realizar o que o tempo só vai querer nos dar na hora dele… mas, da mesma forma, nos esquecemos de agir como boas malandras, na hora em que deixamos a vida nos levar e não conduzimos o caminho certeiro para a nossa felicidade. Sermos levadas é o mesmo que concordar que a nossa fraqueza é mais forte do que a nossa vontade, e que a preguiça de mudar um triste fim é maior do que a certeza de virar o jogo na hora certa. E erramos ao pensar que termos as melhores cartas nas mãos é o mais importante no contexto desse jogo… não fazemos nada com as melhores cartas se não sabemos usá-las adequadamente, na hora certa e com a pessoa certa.

E, além dos ensinamentos no jogo das cartas, o malandro também nos presenteia com valiosas lições sobre o amor… ele, que parece ser um mestre na arte de galantear, no fundo não passa de um menino maduro que sabe como tratar uma mulher; nosso malandro nos ensina que é melhor vivermos apaixonadas do que nos amargurar questionando sobre o amor que sentimos e que recebemos; mais ainda, ele incentiva a nos apaixonarmos de novo pela mesma pessoa que está ao nosso lado, que, bem verdade, diga-se de passagem, nunca é a mesma pessoa com o passar dos anos…

E ele nos lembra, por fim, que, se entre uma dança e outra errarmos o passo, é sempre bom termos ao lado nossa amiga “pinga” para conversar… até voltarmos no passo certo e com o jogo nas mãos.

Fui! (me apaixonar de novo pela mesma pessoa, acertar o passo da minha dança e aprender a jogar um bom carteado!)

Cris Coelho

A minha literatura é livre de estereótipos, padrões e convenções. Ela entrega poesia onde há cotidiano. E renova minha fé em mim e no mundo. Cris Coelho, Escritora & Poetisa

One thought on “Malandragem

  1. Carlos Moraes disse:

    Espetacular!! Um dos melhores!!

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