Minha Escada

Subir-escadas-para-emagrecer

Demorei tanto para chegar até aqui… ainda sinto meus tornozelos doerem e minhas panturrilhas incharem. Sinto todo o peso do mundo nas minhas costas: o peso da mágoa, da distância e da saudade; Sinto os batimentos do meu coração acelerarem a cada nova etapa, a cada subida mais íngreme e em todas as vezes em que sou obrigada a “correr para chegar a tempo”…

Sei apreciar também a vista durante o breve momento em que não estou subindo, com todos as pausas merecidas, nas horas em que a preguiça e o tédio invadem minha mente agonizante por um pouco mais de tempo comigo mesma. Aproveito também as confraternizações oportunas em que é possível ser eu mesma sem um objetivo pré-definido, ao lado dos que tanto amo e que me acompanham neste trajeto.

E em todas as vezes em que penso em desistir de subir, lembro que a minha escada não foi desenhada para descidas, apenas para subidas. É ali, no limiar da minha dor que encontro o pôr do sol mais lindo, onde contemplo os segundos de vitória que me permito desfrutar, com a pausa merecida para retomar meu fôlego e voltar a subir.

Até onde esses degraus chegarão eu não sei, mas me proponho a passar por cada um deles rumo ao lugar mais alto que eu possa conquistar, sempre subindo e jamais voltando a um nível mais baixo. E desta forma vou seguindo meu caminho, aquele cujo percurso não é fácil nem difícil, apenas “fascinante”…

Fui! 

Roda Gigante

fun in the lunapark, people on the rollercoaster and big wheel,

Passeando por este parque imenso sinto meu peito apertar do lado direito e lembro-me porque cheguei até aqui… são infinitas as voltas que esta roda gigante há de me proporcionar, mas é ao lado dos que amo que pretendo cumprir a maior parte delas, todas em um ritmo bem suave e constante, mas nada devagar o suficiente para me fazer cansar do passeio que tanto me emociona, nestas alturas díspares e proporções assimétricas quando vistas ao largo…

São pequenas as recordações que ficaram em voltas antigas, aquelas que não puderam acompanhar-me no percurso que cisma em não findar e que insiste em continuar certeiro e pontual. E a cada nova volta, sinto um calor insuportável do chamado que clama pela minha presença, ainda que eu saiba que não estou pronta para abandonar meu assento neste enorme brinquedo… mas reconheço que outros esperam para entrar nesta enorme roda, então, aproveito todas as voltas que me restam, com suas descidas e subidas emocionantes, e com o vento fresco que abraça meu rosto cansado a cada novo movimento, e a cada novo sonho (meu ou dos que tanto amo).

Mesmo de longe, consigo observar a maravilha que é a descoberta das voltas jovens pelos que ainda não têm tanta história para contar neste parque diverso e encantador; preocupo-me com a falta de segurança que enseja machucar um dos meus, e estranho o fato de nunca ter percebido este perigo antes, mas parece-me apropriado dizer que a esta altura da roda, é nos detalhes que me apego cada vez mais, naqueles detalhes sorrateiros que se disfarçam com o brilho do amanhecer e que se mostram somente ao entardecer de um dia cheio de voltas. 

E à medida em que sinto a grande roda acelerar para os que estão com seus pulmões cheios de ar, percebo a desaceleração do meu banco, que começa a se desprender do todo, em um compasso de alegria e exaustão, embalados pelo motor já gasto de tantas voltas que proporcionou, com tantas visões e com tantas emoções, agora anestesiadas de tanto viver…

Fui! (aproveitar o passeio enquanto minha roda ainda gira…)

Redemoinhos

redemoinhos

Caminhando por estes vales sombrios, deparo-me com minha imagem refletida em um pedaço de espelho quebrado em mais de mil pedaços. Vejo-me pequena em uma imensidão de faces, em um transbordo de ideias e sentimentos, em um vácuo de saudade que não consigo entender, mas que sinto como uma lança encrustada em meu peito frágil.

São fragmentos de mim que gritam para que eu me conforme com as atitudes que não tive, com os pensamentos que deixei fluir e com os momentos que não aprisionei em minha mente esquecida… são todas as versões de mim, umas melhores e outras nem tanto, mas todas, um real exemplo do que fui e do serei, na linha tênue deste tempo que parece enorme, mas que é tão curto quanto esta estrada que sigo sem parar, em passos consoantes com as exaladas profundas que permito-me dar, a cada curva e a cada subida íngreme.

Mas é a cada encruzilhada que encontro um pouco do meu olhar sedento por sonhos tão inimagináveis quanto minha mente esperançosa ousou querer, e é ali também, que consigo vislumbrar as rugas de satisfação por cada afeto genuíno que angariei pelo caminho, todos amparados pelas palavras sábias dos que me amaram apesar de tudo e apesar de mim…

E é com esses olhares que entrego-me ao infinito propósito de ter vindo e de ter deixado nos estilhaços de espelhos o reflexo do meu mais afetuoso gostar, sempre embalado com minúcias de mim em versões expontâneas e seculares de todo amor que consegui recolher durante esta rápida caminhada.

Fui! (buscar meus melhores reflexos…)

Imersa

imersa

Imersa no meu mundo sombrio, destaco o que há de melhor na minha essência singela para tentar agradar ao máximo, os poucos que sobreviveram à minha ira. Sou eu, em um turbilhão de sentimentos explosivos, que tenta resgatar um pouco da boa fé alheia, aquela que ainda não foi perdida depois de tantos rompantes e desacatos… 

Peço perdão aos que amo e sigo em busca de um sorriso ou um afago, transformando em palavras o gosto ácido que deixei pelo caminho, e transferindo meu afeto às cicatrizes recém-empossadas de sua nova capa. Faço minhas as palavras dos antigos profetas, tentando ser mais gentil com quem nunca demonstrou tanta simpatia ou mesmo por quem menosprezou minha continência sincera depois de uma batalha sangrenta.

Acreditem, não fiz por mal. E, se fiz, já me arrependi faz tempo… sou assim, uma eterna personagem de mim mesma tentando frear o impulso automático que salta na minha frente para defender meus pontos de vista ou para não deixar que a minha voz esmoreça. E não descanso enquanto não for ouvida, ainda que por quem não queira ou não mereça escutar o que tenho a dizer.

E sempre ao final do dia, sento-me rodeada por meus pensamentos traiçoeiros que não se calam dentro da minha mente inquieta, onde também me atormentam as verdades amargas de todos que machuquei no dia de ontem ou em um passado distante do hoje. Mas, ao revisitar estes rostos corados do sol que minha imaginação os aquece, perdoo-os no mesmo compasso em que concedo-me este mesmo perdão; é o descanso providencial para uma alma que adora brigar, mas que também ama fazer as pazes. 

E se você ainda não foi alvo dos meus desafetos em forma de briga, é porque, muito provavelmente, você não foi alguém tão importante para mim…

Fui! (Emergir de mim…)