Nós

divino

Quando escuto sua voz, lembro-me de quem eu sou e do caminho que percorri para chegar até aqui. Percebo que fui mais forte do que imaginei, mais suave do que precisava e mais corajosa do que sensata. Não pude ver meus méritos porque estava ocupada demais para me vangloriar das pequenas vitórias que angariava pelo caminho torto que minha vida havia me levado.

Era eu, em uma versão muito mais dura, que tentava gritar dentro de uma bolha de vidro chamada lar; e era esse mesmo lar que me acorrentava e me prendia a você, em lembranças de tempos que não voltam, mas que também não entardecem e não envelhecem. Sou eu, sua amiga que agora clama por um pouco mais da sua companhia, envolta em memórias e conversas sem importância, com tempo de sobra para jogarmos fora, nesse imenso vaso de rolhas de vinho colecionáveis, que vão durar mais que nós mesmos e menos que nossas histórias…

Tornamo-nos plenos nesses momentos que parecem durar uma eternidade, mas que se vão em segundos. Tornamo-nos grandes no amor que nos conecta, no elo simples que liga nossas almas a uma imensidão de nós mesmos e tornamo-nos gratos quando percebemos o quanto foi bom estarmos aí, ao lado um do outro, mesmo com tudo que enfrentamos, apesar da vida e apesar de nós…

Fui! (amar você…)

Diversidade

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Ainda espero por seu sorriso, pelo abraço apertado e pelo olhar condescendente, cheio de afeto e concordância. Queria ouvir, ao menos uma vez, que eu estava certa sobre as minhas convicções. Queria poder admirar a passividade das suas ações frente à assertividade das minhas verdades, daquelas verdades que deveriam ser universais, se o mundo não fosse um lugar tão complexo para se viver…

Seria eu mais feliz, se pudesse andar livre ao lado dos meus iguais, todos com o mesmo pensamento e vivência; todos colocados dentro do mesmo universo mágico e dolorido que compartilho com as lembranças de uma infância especialmente desenhada para mim. E dentro dessa alma livre eu iria semeando minhas palavras com todas as exclamações possíveis e, claro, sempre ocultando as estrofes dos discursos dos outros que não combinassem com a melodia das minhas rimas, que estariam entre aspas ou entre parênteses providenciais…

Porque o mundo, com certeza, seria bem melhor se tivesse o mesmo tom para todas as peles e o mesmo estilo de roupa para um único armário. Esse seria o mundo ideal criado dentro da minha mente egoísta e cujas cicatrizes de desamor deveriam ser revestidas pelo pó da vergonha, já que não existiriam barreiras a serem ultrapassadas, em uma sociedade de um mesmo indivíduo sistematizado em vários “iguais”.

Mas o mundo não é do tamanho da minha prepotência, o “Mundo” é muito, muito maior, que os limites que eu insisto em impor aos outros habitantes desta mesma terra chamada vida. E por esse mesmo motivo, ele não pode ser unificado em uma única nação, com o mesmo hino e apenas um “perfil adequado”. 

Fui! (Agradecer as enormes diferenças que me cercam e me ensinam…)

Penélope Distraída

penelope

Tantas vezes procurei no fundo o que estava bem à vista, na margem mais acessível. Tantas vezes quis alcançar o éden do prazer, aquele que exprime o melhor momento de toda uma vida, como orgasmos múltiplos entoados em um mesmo ritmo, e acabei descobrindo, quase sem querer, que ele sempre esteve aqui, no aconchego do meu lar…

Tantas vezes quis o seu toque, o toque do amor da minha juventude, que havia sido borrado com a névoa das lembranças distantes, até o dia em que vi uma foto sua e me espantei como aquele olhar já não conversava com a minha alma inquieta por desejos obscenos e proibidos. Vi-me indecente diante da sua vida puritana e simples; vi-me complexa demais para me encaixar na sua rotina exaustivamente entediante, e, por fim, vi-me madura o suficiente para encontrar razões para buscar um outro toque, de um outro alguém mais acessível e mais meu.

Tantas, mas tantas vezes, quis ser o centro das atenções de outros, quando na verdade, a atenção que eu mais precisava buscar era a minha própria; o olhar cuidadoso que me fazia falta quando não estava prestando atenção nas pequenas dores que meu corpo acusava: eram elas que me diziam o que eu me recusava a escutar, e quando parei para ouví-las, já era tão tarde que preferi fumar só mais um cigarro, só mais um…

Hoje visto minhas roupas com mais vontade de usá-las, aproveito a música que toca incessantemente no meu aparelho de cinco polegadas e imagino que o mundo é mesmo muito intenso para uma vida de apenas algumas décadas fortuitas… quero sempre mais da vida que ganhei sem esforço, embora saiba que não posso pleitear mais do que o que está reservado para mim, na curta jornada que encaramos toda vez que nos olhamos no reflexo de um espelho qualquer.

Tantas vezes quis ser o que não era, ter o que não tinha e fazer o que jamais faria, que desperdicei uma grande oportunidade de aproveitar a vida que eu tinha, aquela que não era tão colorida, mas que tinha a luz mais real para o meu tom de pele…

E agora, escolho melhor o vinho para me acompanhar toda a noite, ao lado dos meus. E são eles que enaltecem meu orgulho e fazem meu coração transbordar de alegria  toda vez que escuto suas declarações com a verdade de que sou e que fui “suficiente”.

Fui! (Fazer as pazes com meus desejos não-realizados…)

I.N.T.E.N.S.A.

riso

Intensa: é a palavra que melhor me define. Se me irrita, eu brigo. Se brigo, me arrependo. Se me arrependo, repenso. Se repenso, mudo de ideia. E aí, brigo de novo…

Sou intensa desde que me conheço, desde que conseguia distinguir “manha” de “fofura”. Eu era manhosa, mas fingia ser fofa para conseguir o que queria. Sim, também tinha minha dose de interesseira… até descobrir que o mundo é muito mais cruel que os meus simples descompassos.

E foi com essa mesma intensidade que briguei, quando entendi que não ia conseguir aquele prêmio, que o meu namorado jamais seria meu mais do que era “delas”, quando vi que de nada adiantava fazer tanta dieta, se a cada hora, a imagem daquele doce vinha me seduzir e acabava me levando para a mesa farta que eu vivia fugindo…

Não adiantava tentar parecer melhor do que eu era, se a minha melhor versão jamais agradaria aos que eu achava que me importavam. Não adiantava ser eu, em um modo mais meloso, se era a pessoa insensível que todos esperavam ver do outro lado da mesa. Não adiantava, realmente, mudar para melhor, se para melhor era um lugar que eu não tinha o endereço. Então fiquei no lugar “pior”. E briguei, ah… claro! Briguei com toda a intensidade que pude.

Só parei de brigar quando descobri que o sinal estava vermelho, que as luzes haviam se apagado e que era hora de ir embora. Mas a emoção que eu mal conseguia conter dentro do meu peito apertado era tanta, tanta, que não pude evitar uma última olhada pelo retrovisor, aquela que me mostrou o quanto meu discurso ácido espantou o mal olhado dos que invejavam a minha aura cinzenta, mesmo sendo cinza! E o quanto minha rispidez encorajou os que caíam ao lado dos meus pés já calejados de tanto correr…

Esse reflexo me revelou, enfim, que a capa de cimento que eu havia construído ao meu redor era, apenas, mais uma das minhas fofuras, uma brincadeira da época em que eu ainda ria de mim, fingindo que esse era o meu castelo e que somente os corajosos que conseguissem quebrar a barreira imposta pela minha inimaginável manha, iriam ter o privilégio de conhecer a intensidade que habitava esse corpo bonito com rosto bravo…

Fui! (Parar de brigar…)

Nosso Boechat

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Hoje você nos surpreendeu com a notícia mais triste que podíamos receber de você: a sua partida. Não foi através da sua voz que escutamos, inebriados de um pranto que não quer calar, que você é mais uma das várias tragédias que assolam nosso já machucado país.

O nosso Brasil hoje chora a perda de um brasileiro, que lutava com toda a emoção para dar voz às causas que relatavam injustiças e absurdos cotidianos que se propagam em vários setores desse nosso enorme celeiro de notícias.

Você foi tão cedo e tão rápido, em uma segunda-feira qualquer de um ano que vai marcar para sempre a história do jornalismo, já que foi o ano em que você deixou o microfone esperando por sua voz; o ano em que você nos deixou sem saber o que fazer, sem saber como serão as nossas manhãs, que agora ficarão órfãs dos seus comentários, da sua análise, do seu olhar tão claro e tão pungente.

Consola-nos saber, talvez, que você tenha tido uma queda fulminante, em um desfecho que só você poderia ter, já que os grandes ícones costumam ter partidas à altura do seu tamanho; imaginamos, ainda, que você partiu quando ainda estava no ar, no lugar mais alto que você poderia tocar em vida, antes de dizer adeus à terra que você tanto amou. Pensamos, por fim, ser assim que você resolveu se despedir, da única forma que você conseguia viver: com intensidade.  

E nessa infinita intensidade você nos envolveu em um único tom, clamando por seus acordes genuínos, pedindo por um pouco mais de você, tão sério, tão ranzinza, tão maravilhoso e tão único.

Vá em paz, nosso amigo de todos os dias. Nós estaremos aqui pensando em você e sentindo a sua partida como se fosse a partida de um membro da nossa própria família, o que, na verdade, foi o que você acabou se tornando: “um pouco de cada um de nós”.

Fui! (…)

#mariascarlet

 

Manto Sagrado

chuteira

Perdoa, meu Pai, perdoa as lamúrias do seu filho pródigo, que tentou ir além dos passos ensaiados, driblando o desconhecido, em terras nobres de nomes consagrados pela fama e pelas jogadas encantadas.

Foi uma ilusão acreditar que um dia chegaria lá, mas quem sabe se não cheguei de alguma forma? Alcançar a fama através das chamas, daquelas que consumiram meu corpo com a mesma vontade com que eu entrava nos campos para jogar mais uma das várias partidas fortuitas, que encharcavam meus cabelos de suor e meu coração de alegria… Alcançaria meus pleitos por vontade própria só com o toque suave dos meus pés, que corriam atrás do meu sonho mais pueril, aquele que se desfez em uma noite maldormida, uma dessas em que acreditava que estava seguro, debaixo dos cobertores que me agasalhavam, enquanto meus sonhos viravam pesadelo debaixo dele, do ‘urubu de ouro’, o urubu da sorte maldita, que me fez despedir com antecedência da vida que minha mãe me havia dado para brindar com sorte o futuro de gols e passes, que se desfizeram sorrateiramente, na calada da noite, sem que eu conseguisse calçar minhas chuteiras aladas, sem que eu conseguisse dizer adeus a ela, sem que eu conseguisse pisar de novo na grama que eu tanto amei, com a qual eu tanto sonhei.

Vivo hoje em um outro campo, cercado de cores por todos os lados, mas almejo, de alguma forma, tocar no manto sagrado que um dia me envolveu com amor, que me trouxe fé e esperança, que me desintegrou em seu negro e fez meu vermelho escorrer por entre meus pés calejados e amparados pela sorte, que nesta noite não me acompanhou até o campo; a sorte que se escondeu atrás do gol, em um relance de craque que espera a segunda chance para entrar no jogo. 

Pena que esse jogo já terminou para mim… mas visto meu negro em luto por todos que hoje choram em cima das asas desse “Urubu de glórias”, que se despede inebriado de um pranto sem fim, sem retorno, sem passes e sem dribles. 

Fui! (…)


* em memória dos 10 meninos mortos no incêndio do Centro de Treinamento do Flamengo.

** meus mais profundos sentimentos aos familiares.

Canção da Alvorada – * Republicada por ter ganho Prêmio de Literatura *

alvorada

Em incessantes minutos eles me convidam a partir e sou levada ao extremo da minha ignorância para me ater a um segundo sem paz ou penitência. Um segundo de nada, seguido por intercaladas noites de frio que se desfazem com o anúncio da alvorada.

É o remédio das almas que adormece o coração dos pecadores, que refugia o mal dentro de si e expulsa as mágoas do horizonte de quem quer ver além. É este plano que rompe o silêncio dos vivos e que transita junto a estes o bem que está à espreita, mas que só alcançamos com vontade.

Parto em minutos que se cansam de esticar, em memórias oportunas de tudo o que é verdadeiro e impensado; sou forte o suficiente para levantar, mas não sei se quero seguir adiante com novos amigos a me rodear.

Preciso de calma para deixar este corpo que me pede constantemente para ficar, preciso de coragem para dizer adeus e de mais um pouco de tempo para me acostumar.

Na alvorada, as almas se levantam e seguem em direção ao nada, que está cheio de vida e cheio de paz, em um vasto espaço de tempo, que é inóspito e sereno. Não me nego a seguir com elas, mas escolho entrar por alguns segundos em um espaço reservado para a minha alma, um cantinho que é só meu e que esteve trancado por tanto tempo. Relembro as dores e as angústias, vejo o meu eu tão pequeno e inocente. Recolho as mazelas que ficaram pelo caminho, limpo o espaço que meus pés percorreram e percebo as marcas que ficaram na estrada. As cicatrizes que deixei em mim e nas pessoas que cruzaram a minha estrada.

Não consigo enxergar além de mim, a culpa que me é cotidiana, talvez porque já esteja curada, talvez porque já não importe mais. Me escondo neste rincão com a promessa de não fazer barulho. Tento fingir que ainda tenho tempo e que a alvorada não vai chegar tão cedo. Tento aliviar o peso das minhas pernas dentro de algum pilar sólido no sótão empoeirado da minha mente, mas o que vejo são estruturas que estão prestes a cair, em um palácio de ilusões que vai desmoronar a qualquer momento, assim que a alvorada chegar.

Então, levanto-me e saio em direção a esse nada, cheio de novas oportunidades e de novas formas de fazer o mesmo. Sigo em direção à minha nova vida, do lado de lá e também aqui. Em todos os lugares possíveis, os que já percorri e os que vou percorrer.

Porque agora que a alvorada chegou, não sou mais “eu” apenas. Agora sou um “eu” novo, um “eu” onipresente e eterno.

Salve!

Fui! (viver enquanto não chega a minha alvorada…)

 

* Ganhadora do Prêmio “Poesia Agora” da Editora Trevo