Gateheaven

Capítulo 10: “Imagine”

“E foi assim que as verdades sobre o meu passado foram reveladas… da forma mais cruel e dramática. Eu me tranquei na prisão que construí, no paraíso acima das maldades da Terra, fui para dentro da minha mente brilhante, onde só eu poderia reinar absoluta, onde os meus sonhos se tornariam verdadeiros e onde a realidade seria mais amena e mais singela que as rodas frias da minha cadeira.

Foi ali, no coração de Gateheaven, que encontrei o futuro desejado, mesmo sabendo que havia sido feito a partir de um passado inventado. A dura realidade da vida nos encontra, onde quer que estejamos, por onde quer que vaguemos… e essa realidade me trouxe até o Vale do Silêncio, onde os tons da vida feliz não tocam e onde os ecos da minha dor gritam mais alto o sofrimento que insiste em me visitar.

Fui até o Vale e passei longos sete anos por lá. Esperei que as vozes se acalmassem até conseguir voltar. Quando voltei, tudo estava exatamente da forma como eu havia deixado. Jason e eu nos casamos em uma cerimônia linda, com flores bluebonnet por toda a extensão da Pequena Capela. Mandei limpar a lateral com mofo e refazer a lápide da mamãe, depois que descobri que as iniciais “Lu”significavam: “Aqui Jaz Trycia Myers, Mãe amada de Luanna Myers”. Algumas tulipas negras insistiam em crescer próximas ao túmulo da mamãe e, sempre que eu percebia sua presença, as arrancava com toda a força.

O tempo passou rápido por mim nessa vida encantada e segura. Tivemos um filho que chamei de “John Lennon”, em uma singela homenagem ao meu eterno ídolo e cujas músicas foram entoadas em nossa cerimônia de casamento. John Lennon Myers seria o herdeiro de toda Gateheaven, o senhor das terras e detentor dos sonhos de toda uma geração. Meu filho é lindo, possui sardas, covinhas e um cabelo ruivo encaracolado. Ele tem os olhos azuis da mamãe e os traços finos do Jason. Também puxou à avó paterna, a Sra. Louise, que não conseguiu sobreviver à dor da minha descoberta e foi sepultada ao lado de mamãe. Janete se desintegrou totalmente, no fatídico dia das revelações, restando apenas os restos das suas roupas, que foram encontradas à beira do Rio das Almas… ”

 

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Eu Calo, Tu Calas

Eu calo, tu calas, todos nós calamos… onde quer que estejamos, é diretamente para o abismo do silêncio que encontraremos o espaço que refletirá a nossa paz. Para longe dos holofotes que jamais sugerirão uma harmonia nas diretrizes das nossas conturbadas vidas.

Somos todos exemplos da nossa cultura, do meio em que sobrevivemos e das expectativas frustadas a que somos submetidos. Somos resultado dos sonhos que nos apresentam quando ainda não temos discernimento para definir o que nos emociona; somos esse final mal-acabado do querer de outros, protagonizado em nós, mas com um corte de cabelo mais moderno e atual.

Calemos nós, sempre que o outro for inimigo do nosso querer. Não sabemos ao certo para onde estamos caminhando, mas sabemos que o conflito será inevitável; da mesma forma que sabemos que nossos preciosos cabelos vão cair depois das sessões de quimioterapia, mas, ainda assim, seguimos para ela, com os braços abertos e o coração apertado. Queremos a cura, mas nos maltrata saber que teremos que nos calar diante do apocalipse que se aproxima. 

E, depois de tantas dores, depois de tantos discursos inóspitos e vazios, de concorrentes que antes compartilhavam doses geladas de álcool e sorrisos artificiais em papos informais, percebo que o silêncio nos abraça com mais cuidado e menos violência. Mas insisto em desdobrar o que há do outro lado, o que vem depois do tratamento e sigo tentando emplacar o “nosso discurso”.

Não me calo, não me conformo. Vivo aqui, no caos dessa pátria, que também é minha. Cala tu porque eu não me calo, minha voz continuará a ecoar, ainda que rouca…

Fui! (gritar…)