Minha Casa

mao

Depois de todas as tormentas que enfrentei, depois de todos os caminhos que percorri, foi em seu colo que senti que havia chegado “em casa”. E quando entrei e não te encontrei, me senti igualmente segura, pois o seu cheiro ainda impregna minha vida, seu calor ainda esquenta minhas mãos e seu olhar, sempre vigilante, ainda me conforta. 

É você, em um milhão de definições diferentes que encontro quando procuro meu cobertor de infância, aquele que tem as lembranças mais doces e divertidas, de um tempo que não voltará jamais, mas que me faz todos os dias recordar como é ser cuidada de verdade.

Não me esqueço, um segundo sequer, de rezar a oração que você me ensinou. Não me esqueço de olhar para as partes mais óbvias de todo texto para tentar encontrar algum sentido escondido entre as vírgulas e os pontos finais. Não me esqueço de você e, mais presente ainda, é a lembrança das suas mãos ásperas segurando meus dedos frágeis e pequenos. 

E todas as vezes em que sinto medo, me protejo com as lembranças que tenho de como eu me sentia quando estava ao seu lado; me lembro que permaneço com você ao meu lado, mesmo sem te ver. Me lembro de senti-lo, e sinto a proteção que me abraça e me aconchega nessa energia que é inexplicável, mas ao mesmo tempo real.

Fui! ( buscar suas mãos…)

Partituras Livres

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Hoje percebo o quanto o tempo é nosso amigo. Ele nos ensina a aguardar, até último segundo, aquele em que já pensamos ser inútil, mas que ainda está lá. É o tempo, o senhor de todos os sons, dos mais agudos aos mais graves; é ele quem dita o caminho pelo qual a partitura da nossa vida vai se desenhando, e é ele que, sem pudor, nos convida a nos retirarmos, em hora providencial para a trilha sonora que ele construiu. 

Podia pensar que ele é um ser sem coração, que age por pura ambição, mas quando paro para escutar a partitura final que ele compôs, entendo que a perfeição nem sempre é entendida por nós, simples mortais do tempo escasso; a perfeição está no desajuste e nos desencontros que o tempo insiste em impor, em um gesto simples e quase irônico, quando nos tira o que jamais foi nosso, para brincar com nossa mente egoísta e nosso ego magistral.

É ele, o senhor Tempo, quem dita as façanhas da nossa pobre e ordinária existência; é ele quem nos diz quando e é ele quem nos impulsiona a ser livres, mas “livres” no tempo dele, é claro. 

E ao som dessas partituras feitas exclusivamente para mim, sigo dançando plena. Tenho orgulho da maior parte da coreografia, mas me envergonho de alguns passos errados, de posições um tanto constrangedoras para o espetáculo. E a cada queda, me levanto e me recomponho. E a cada parada, respiro. E a cada nova melodia, danço.

Fui! (escutar a maravilha que é a minha partitura…)