Não Quero Mais…

Depois de tantos caminhos tortos, consegui chegar até aqui. Cheguei descalça, sozinha e um tanto machucada, mas cheguei. Não fui sempre fiel, aos outros e a mim mesma; não cumpri todos os acordos, não me lembrei de cuidar tão bem de todos que ainda amo, não me importei na verdade.

Sinto muito, muito mesmo. Gostaria de ter te homenageado no seu dia, ou durante toda a sua vida. Gostaria de ter mostrado o meu melhor lado, que fica escondido debaixo do meu egoísmo cotidiano…  gostaria de tantas coisas! Mas o que eu mais queria nesse momento é que você entendesse que essa é a minha essência, e essas são as minhas cores: “as escuras”.

Agradeço os seus elogios e te peço, se for me criticar, por favor não o faça. Já passei da fase de aprender com os outros. Agora aprendo comigo, com os meus singelos erros que deixo no caminho como aprendizados fortuitos e casuais, aqueles que endurecem a minha alma e me tornam ainda mais fascinante.

Não quero mais me magoar com palavras que machucam, com verdades que doem na alma e com pensamentos que para mim são tão, tão pequenos… não quero mais seus conselhos ou suas análises piedosas a respeito da minha falta de virtude. Simplesmente, não quero mais.

Nos poupe do desgaste, do discurso ácido e das trocas não produtivas de tudo o que é claro demais para a minha visão sombria e devastadora do mundo. Não vou entrar para a sua igreja e não vou cantar o seu hino. Também não vou comer da sua comida porque o seu tempero não combina com o meu paladar… e, por fim, pare de me oferecer a sua água sagrada; eu prefiro whisky.

Fui! (viver minha poesia…)

Essa Sou Eu

O tempo está se esgotando e você continua aí, parado e insistente, tentando mudar o que nunca vai conseguir… porque eu sou assim; sou livre e louca, sou parcial e apaixonada e não, não sou nada racional quando o que está em jogo é a minha felicidade.

Não consigo me comportar como deveria, não consigo amar incondicionalmente quem não é meu, não consigo ser altruísta ou verdadeira, se ser autêntica significa encobrir os pedaços sujos que fazem parte da minha essência…

Não sou dessas que passam horas se maquiando para uns milhares de olhares vazios, e também não escolho o que comer para alimentar minha vaidade anoréxica; eu alimento meus desejos e vejo meus pecados em cada dobra do meu corpo, aquelas que não se desfazem com exercícios nem com força de vontade, porque elas fazem parte de mim. 

Não vou mudar, me desculpe. Eu sou assim: errada no discurso, fora do padrão e extremamente pessimista quando se trata da vida real. Mas eu sei imaginar um mundo onde posso ser o que você quiser: o seu. Porque no meu mundo só há espaço para uma de mim…

Agora que você já me conhece, seja bem-vindo. Essa sou eu.

Fui! (me assumir…)

Suas Cores

Suas cores invadem o meu mundo e o tornam mais vibrante. Elas falam diretamente à minha alma, que já havia se esquecido de que a vida é muito maior que um simples “não”. Elas me incentivam a continuar a caminhar, mesmo sem tempo, mesmo cansada.

São elas, as suas cores, que brilham para mim em um dia como esse, um dia em que não posso reclamar de nada, mas que também não quero agradecer pela mesmice dos sabores amargos. Escolho viver um pouco da beleza que você me empresta neste dia tão cinza, a beleza que se expande para os lábios, antes rígidos e agora maleáveis, cortejando o balanço de um sorriso faceiro.

Não queria admitir, mas você realmente tem esse poder. Você consegue me fazer ver cor na imensidão de um vazio inóspito, de um horizonte sem emoções e de instantes aparentemente sem sentido. Você resgata meus sonhos e me estimula a continuar sorrindo, só com algumas gotas coloridas.

Porque a palavra esperança que sai da sua boca não tem somente a cor verde, ela tem todas as cores…

Fui! (colorir meu dia…)

Mãe

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Mãe, minha mãe. Hoje me sinto mais forte e mais segura; me sinto mais capaz e mais determinada. Hoje sou eu quem reclama da bagunça na casa, quem regula a quantidade de açúcar e quem reza para pedir a proteção dos meus, toda vez que saem por essa porta.

Mãe, hoje eu enxergo todas as manhas que fiz e besteiras que falei; hoje entendo que tudo o que você fez foi sempre pensando no meu bem, ainda que indiretamente. Hoje entendo o quanto o meu barulho em excesso te incomodava e imagino o quanto o meu silêncio, na minha saída de casa, te deixou aflita…

Mãe, hoje eu sei o porquê daquele olhar ameaçador: porque você queria que eu pensasse que você seria cruel comigo, para que eu não descobrisse o quanto o mundo é cruel de verdade. Hoje sei que o almoço sem graça que você me dava durante a semana era para eu valorizar as delícias que viriam no final de semana. Percebo que a vovó era boa demais porque você a havia transformado em uma espécie de “Santa”, uma muito especial que podia quase tudo, menos sobreviver à própria partida.

Eu me lembro do sabor da minha infância, recheado de paz e harmonia, e rodeado de dramas que me pareciam distantes, apesar de se passarem bem na minha frente. Lembro-me de você me dizer que estava tudo bem, mesmo quando não estava… não consigo esquecer daquela vez em que te vi chorando no quarto, abraçada com a almofada de crochê que a dinda te deu, depois que cheguei da casa da vovó. Você nunca me disse o que havia acontecido, só me falou que tudo ficaria bem.

E, desde então, todas as vezes em que estou triste penso nas suas palavras, vejo você e enxergo em seus olhos o conforto que tanto busco. Você não vai me trazer a solução para os meus problemas, mas vai me mostrar o caminho que tenho que percorrer até lá dentro da minha alma, para encontrar a fortaleza que você ajudou a construir…

Fui! (Respirar um pouco de você…)