Madalena Arrependida

balanco3

Madalena não vive de recordações. Preferiu separar os sentimentos do passado e do presente para poder seguir sua vida dentro da normalidade cotidiana dos dias atuais. Os sentimentos do passado lhe causam dor, mas reavivam sua essência carente e frágil. Resolveu, então, pintar os cabelos para achar um motivo novo para se preocupar…

Ela não se arrisca a viver do antes, senão do único e puro “agora”. As decepções ficaram empoeiradas em alguma estante cheia de livros e memórias. Se esqueceu de sofrer pelo que já não vai mudar. Preferiu ficar leve e desembaraçada em cima das suas verdades atuais a ter que deparar-se com as circunstâncias das suas desventuras.

Já não é uma menina e tem o tempo como seu companheiro de quarto, aquele que não vai esperar para marcar seu lindo rosto com os rastros cruéis das suas mágoas. Madalena prefere sorrir a ter que viver agoniada por seus arrependimentos. Ela prefere encontrá-los em outro momento, mais pra frente, sem pressa e sem culpa.

Fui! (aprender com a Madalena como viver bem…)

Partidas

trem3

Quando será que a nossa hora vai chegar? Será que demora ou vai vir daqui há pouco? Esperamos que a sua visita seja demorada e que ao anunciar sua chegada, ela seja silenciosa e quieta… que venha tranquila, sem estardalhaços ou excentricidades.

Esperamos que a nossa partida não doa tanto quanto doeria a partida precoce dos nossos, mas a desejamos antes, de forma bem egoísta, para que a nossa dor seja menor. Desejamos a melhor partida, mas a desejamos em silêncio, sem deixar que ela perceba que, às vezes, pensamos nela.

Desejamos ficar para sempre, até o dia em que cansarmos. E achamos que não vamos nos cansar nunca… bobagem! Um dia cansaremos de esperar pelo trem de ida. Mas, enquanto o esperamos, sentiremos remorso pelo que fizemos, desejaremos ter feito mais loucuras, ter amado mais ou, ao menos, ter declarado em português claro, os nossos sentimentos.

E quando nosso trem chegar, desejaremos dar um último abraço. Aquele apertado, que dói na alma mais do que nas extremidades do corpo. Aquele abraço que diz muito mais do que todas as palavras que existem no mundo. O “abraço da despedida”, da hora que o trem sinaliza a partida.

Para esse abraço guardamos nossas mais valiosas forças, a força do adeus de quem está embarcando para longe, mas que deixa dentro desse abraço, nessa última parada, um pouco de si.

Fui! (desejar viver plenamente, antes do apito do meu trem…)

Várias Mulheres

mulher-de-preto-5

Viva o Dia das Mães e o Dia dos Pais. Viva também o Dia dos Avós e dos Irmãos. Viva o Dia do Amigo! Vamos viver o dia de quem nos importa pelo papel que representa na nossa vida, mas não vamos viver o dia da mulher, do índio, do negro e do gay (existe dia do gay?). Não vamos viver o dia do que somos orgânica ou geneticamente… Não vamos aplaudir os que foram renegados à condição de menores, porque reviver um passado de preconceitos só os traz para mais perto de nós.

Mulheres não são melhores do que homens. Também não são piores que eles. Elas só são diferentes… são um pouco mais, “femininas”. E não são todas as mulheres que são guerreiras, nem poderosas, nem nada de especial. Existem mulheres que são apenas, mulheres.

Algumas mulheres são demônios em corpos de Santas,  são ardilosas e maravilhosas. Essas merecem um prêmio todos os dias por carregarem nas costas a obrigação de serem bonitas, sexies e completas, mesmo não sendo, muitas vezes, nada disso. Outras mulheres são Santas em corpos horrorosos, cercados de banha e terminações desajeitadas, mas são, igualmente maravilhosas em seu conteúdo amoroso e maternal. Existem mulheres especiais e outras nem tanto. Existem homens que têm uma mulher de verdade dentro de si, e mulheres que têm um exército de homens para executar cada uma das milhares de tarefas do dia a dia…

Fui! (comemorar o “Dia da Vaca”…)

Meninos que Dançam

billy-elliot-gallery-8

Existem muitos meninos no mundo. Existem meninos que jogam bola, meninos que lutam karatê e existem os meninos que dançam. Sim, alguns meninos gostam de dançar. E o fato de dançarem não significa que sua masculinidade esteja comprometida. Há muitos homens másculos que dançam, há muitos gays que dançam e há também muitos gays que são másculos.
Então, qual o problema? Nenhum, não fosse o velho e eterno conhecido de todos nós, o preconceito. Ele fecha portas, destrói oportunidades, desfaz amizades. Ele é quem determina quem pode ou não pode, simplesmente, “dançar”.
E o preconceito que meninos femininos sofrem é duplicado quando alguns meninos, sejam eles femininos ou masculinos, desejam dançar. Porque se ser feminino já é assunto de fofoca e discriminação, dançar legitima essa posição, que arrasta para o breu dos acusados sem crime, a sua falta de aptidão para encenar a peça, que a sociedade se arrumou para assistir.
Não somos todos preconceituosos, mas tememos o julgamento alheio quando o assunto são os nossos rebentos. Em geral não nos importamos conosco, mas não conseguimos arrastar por tanto tempo o peso de todos os dedos apontados para o nosso querido menino que, apenas, gosta de dançar…
Fui! (vestir minha galocha para ver meu menino dançar…)