Preconceituosos

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Muitas vezes me questiono qual de nós será responsável por admitir, enfim, seus egoísmos e limitações? Seremos sempre escravos do bom senso e da boa ordem? Mas e quando a campainha tocar e aquele alguém nos chamar para dançar em uma hora imprória? E quando os sinais evidentes da nossa velhice aparecerem ao redor dos nossos olhos?

Seremos nós, flagelos de sonhos que não foram adiante ou apenas pequenos seres humanos que buscaram seus iguais?

Somos todos a imagem e semelhança dos nossos Deuses, sejam eles loiros ou negros, cacheados ou lisos, homos ou héteros. Todos de acordo com a nossa bossa e nossa crença.

Não me diga, por favor, para não ser preconceitusosa, se preconceituosos somos todos os que se enquadram na categoria “humanos”. Nos dividimos em vários, desde que sejam eles, nossos “dividendos”, iguais aos nossos ideais de vida. Não nos misturamos com tribos que não compactuem com nossas crenças. Fingimos aceitar, mas não queremos que nosso filho se case com um alguém menos culto que ele.

Somos todos movidos a preconceito, seja ele optativo ou imposto. E a nossa guerra é sempre mais dura quando nos sujamos de sangue para defender os que diferem de nós. Porque os outros são, apenas, “os outros”.

Fui! (reunir meus iguais e meus diferentes…)

 

Redemoinhos

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O carnaval se aproxima, o mundo gira e as pessoas bebem seu néctar de boa sorte.  Sejamos todos imortais em quatro dias de pura fanfarrice. Sejamos eternos enquanto podemos e ilusórios durante a festa, porque somos personagens inventados de nós mesmos e sussurramos nosso segredo para quem quiser ouvi-lo, sem pudor ou demérito. 

Somos todos meras projeções das nossas vontades, todas esculpidas com malícia e perversidade. Encontramos no outro o motivo para satisfazer a nossa carência de elogios, ou mesmo de abandono, e escolhemos entregar demais para absorver pouca coisa, ou quase nada. 

Mas é carnaval e, se existe um único período livre durante os anos solitários da vida em que existimos, esse momento é agora, nessa festa maldita, onde nossos corpos se estremecem de prazer e nossa consciência praticamente inexiste.

Esperamos que seja um redemoinho de emoções boas, que seja quente, intenso, absoluto. 

Esperamos viver com um pouco mais de humor, em um gozo doce, sem hora para acabar…

Fui! (me acabar, antes que o mundo acabe… )

 

Despedida

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Diante de tantas despedidas precoces, de tantos desencontros e desamores, só posso agradecer aos Deuses a oportunidade de entender o meu real tamanho nesse mundo ordinário.
A minha fortaleza se esconde na omissão dos fatos que não consigo controlar, e minha bravura se dissipa no abismo obsoleto que existe entre o agora e o depois. E no final, somos somente eu e os acontecimentos que visitam a minha vida. Eles me confrontam e me desafiam a mudar o que muitas vezes não pode ser mudado.
Obrigada a todos os que me ensinam, nesta caminhada, o valor de tudo o que é etéreo, que se esvai das nossas mãos com a mesma delicadeza com que entra na nossa rotina.
Agradeço, enfim, a ele, o senhor do destino. Ele, que me ensina a verdadeira graça da vida: a arte de aproveitar cada segundo ao lado “dos meus” como se fossem eles, os segundos, pequenos presentes fortuitos que aliviam o peso da despedida, quando ela vier, magistral e dilacerante.

Fui! (tentar entender e agradecer…)

Aos Olhos dos Outros

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Eu vi minha vida através dos olhos de quem eu amo. Vi momentos de felicidade, de tristeza, de gozo, de raiva. Vi minha vida sob a ótica deles, dos meus amores. Fui grande aos olhos dos meus filhos, mesmo quando estava com medo. Fui pequena aos olhos dos meus pais, mesmo quando me achava indestrutível. Fui esperta aos olhos da minha avó, mesmo quando recebi as notas mais baixas da minha vida…

Fui extremamente infeliz com meus antigos romances, aos olhos do meu novo companheiro. E fui muito, muito feliz, aos olhos deles, meus ex-amores…

Fui louca e esquisita aos olhos de vários amigos queridos, mas aos olhos deles também fui também muito doce e divertida.

Fui epecial para quem eu tanto amo e, sem acreditar direito, fui especial também para as pessoas anônimas que apareceram na minha vida, aquelas pessoas que nunca dei tanta bola, mas que sempre tratei com educação.

Fui muitas, em várias circunstâncias da minha vida. E, de todas as pessoas vistas, a que mais me surpreendeu, foi aquela que eu vi no reflexo do meu espelho: a pessoa que eu enxergava em mim…

Fui! (Me ver melhor…)

 

 

Renascimento

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Morri e renasci mil vezes na minha vida. Morro um pouco a cada dia quando penso nos erros que não podem ser mudados, pela culpa de ter machucado quem eu tanto amo. Morro a cada segundo quando penso em cada oportunidade que não aproveitei, ou quando lembro de cada escolha errada que tomei.

Mas sempre depois de morta, consigo retornar ao mundo dos vivos e recomeçar. Abro meus olhos em direção ao meu futuro, que está cheio de várias possibilidades. Revivo a alegria de estar, de novo, na minha casa, ao lado dos que ainda estão aqui. Nesse momento só consigo recordar as escolhas acertadas e escuto no fundo da alma todos os “sim” que falei para a vida que construí. Os escuto de novo e de novo, até perceber que meus acertos são a prova de que vale à pena tentar novamente…

Minhas mortes me ajudam a viver mais plenamente, a cada nova chance que eu me dou, a cada novo despertar.

Fui! (viver…)

Meu

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Meu. É exatamente o que você é: “meu”. Porque são minhas as suas emoções, as suas aflições e suas alegrias. É o meu amor que te transforma em um alguém melhor, aquele que reflete as minhas pretenções e o meu orgulho.

Muitas vezes pensamos que se trata da sua vida, mas sempre foi sobre a minha vida que estávamos falando… Porque você é a continuação da minha existência. O seu pensamento e suas crenças são resultado de anos de trabalho para te fazer acreditar no que eu acredito. Para gostar do que e de quem eu gosto. São anos de dedicação para estender à você o melhor de mim, aquele pedaço mais pleno, sem manchas e vícios.

E você pensa que quando tem um problema, deveria resolver sozinho? O seu problema é muito mais meu do que seu, porque me atinge em um grau muito maior do que a você. Então o problema é, no mínimo nosso. E as vitórias? Elas podem ser somente suas, eu te dou todo o mérito. Porque nós sabemos que tudo na sua vida é compartilhado, mas o sucesso, a conquista e o sorriso eu deixo só para você.

Fico com a satisfação de ter nas minhas mãos a sua vida, desde o seu nascimento, através do meu corpo, até a sua morte, quando eu espero já não estar mais por aqui, através dos meus conselhos e do meu amor, que se eterniza a cada olhar, a cada prece…

Fui! (agradecer…)

Pedaços de Mim

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Quando vejo meu futuro, vejo pedaços de mim espalhados pelo altar da minha coroação. São fragmentos da minha vida, misturados com sentimentos de euforia e agonia, conforto e solidão, prazer e culpa.

Regozijo a poesia que foi minha vida, cercada por almas bondosas, que me emprestaram suas razões para continuarem vivas. Seres que me ensinaram através do amor ou da dor. São meus amigos de caminhada e meus inimigos de aprendizado fortuito.

Ao final da trajetória, sou toda remontada para, enfim, seguir com a oratória de despedida. Vou feliz, observando esse mosaico de sentimentos que levo na minha bagagem, sem me importar com o peso dela…

Fui! (providenciar pedaços mais felizes para o meu quebra cabeças do final…)

Quem Nunca?

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Quem nunca transgrediu uma regra?

Quem nunca desobedeceu aos pais, professores ou às leis municipais? Certamente não aqueles que levantam seu indicador para acusar os que se destacaram na arte da transgressão… E se mudamos, a sociedade igualmente muda? Não sei…

Quando somos educados para transgredir, a fazemos sem perceber. Não aceitamos a intolerância com os nossos erros, mas comumente não perdoamos os erros alheios. Somos melhores que eles até o momento em que furamos a fila do pão, pelo simples fato de que “a minha hora é mais cara que a sua”.

E se somos repreendidos, gritamos o nome do nosso partido político. Porque na prática, não somos uma nação, somos um exército de várias nacionalidades combatendo um único inimigo: “o próximo”, aquele que queremos bem distante de nós…

Fui! (tentar acertar dessa vez…)