Amizades Antigas

friendship_by_spanish_lullaby

Amigos, parceiros, colegas, competidores, admiradores, “irmãos da rua”. Anos e anos de amizade inocente, projetada à base de Nescau e picolé, não podem se perder no enredo de novos e modernos restaurantes da moda. Não podem ser esquecidos como livros velhos, cansados de serem manipulados e com bordas tortas. Isso porque esses livros têm muita história da sua própria vida contada neles. Tem muita vida feliz, excitante e desiludida com aprendizados compartilhados e fracassos premiados.

Hoje é fácil trocar. Troca-se de emprego, troca-se de casa, troca-se até de parceiro como quem troca de opinião em campanha política. Mas eis que surge uma troca que não é nada fácil de concluir, a troca dos melhores amigos de infância. Essa troca afeta o princípio básico do próprio ato de “trocar”, que é desfazer-se do que já não nos serve com tanta paridade para buscar algo melhor, mais completo, mais ideal. E se a nova companhia de noitada ou de infindáveis papos é mais adequada a essa sua fase da vida, algo sempre faltará no hiato dessa conjunção, que é a história vivida, o conhecimento compartilhado do outro sobre você, o seu passado.

Fui! (Conquistar o mundo de novos amigos, mas sempre com a segurança de que eu existo ainda na memória dos meus amigos da minha vida toda…)

Amarras

051

As amarras que nos prendem são também as amarras que nos fortalecem. Isso porque, sempre que tentamos sair delas, somos machucados, e violentamente lembrados pela dor, do quão fortes temos que ser para podermos seguir em frente. As cicratrizes muitas vezes não se fecham completamente e necessitam de reparos e soluções alternativas. O mesmo serve para a dor que elas provocam, e que constantemente volta em forma de aviso e nunca na forma de uma simples lembrança. Porque, se as amarras são fortes, mais forte ainda é a nossa ligação com elas. E essas amarras são, na prática, a nossa ligação com as fraquezas da nossa alma, que não queremos ver ou ouvir.

O que nos faz, muitas vezes, levantar e recomeçar, não é o futuro brilhante que lampeja amistoso ao longo, oferecendo um universo de novas possibilidades, é a vontade de nos livrarmos de uma dor do passado, da ponta afiada de um arame que insiste em nos ferir, e dos nós, atados e emaranhados, de todo o drama do nosso empoeirado passado. 

E se olhamos para trás e não enxergamos as amarras, é porque, muito provavelmente, elas já foram retiradas por algum cirurgião. Mas se olharmos bem de perto, vamos notar que existem cicatrizes por todo o lado, ainda que pequenas e aparentemente imperceptíveis…

Fui! (Buscar um “bom” cirurgião plástico…)