Sem Filtro

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Sem Filtro. Sim, hoje em dia as pessoas estão definitivamente, “sem filtro”.

Isso porque já não existe algo importantíssimo em qualquer cultura, em qualquer tempo e espaço: a noção de limite próprio, pessoal. Tudo no mundo social atingiu a categoria de “limitless”, e tudo se tornou vulgar e banal. Os próprios momentos cotidianos, que sempre estiveram bem guardados dentro da intimidade privada de cada um, se tornaram momentos adulterados pelo poder de um compartilhamento em massa, na nova modalidade de intimidade coletiva a que nos submetemos.

O simples gesto usual de um filho sorrindo já não tem a mesma graça se não for replicado diversas vezes em notória exposição midiática, que mais se parece com uma propaganda de pílulas da felicidade extrema. A dor se camufla nas esquinas das redes sociais, desaparecendo em meio à tanto carinho gratuito e fortuito. A vaidade se solidifica e gera agradáveis desdobramentos de gentilezas trocadas, afagos não tão genuínos, mas sempre muito bem vindos e, até, indispensáveis para a sobrevivência social. 

Não sou contra as redes sociais, nem a qualquer forma de contato social, seja ela virtual ou física. Sou contra a exposição exagerada, sem nenhum limite ou pudor. Como Dona de Bordel incentivava minhas meninas a tirarem a roupa, mas jamais as incentivei a tirá-la de uma só vez. A roupa deveria ser tirada aos poucos, na cadência de uma bossa própria, com ritmo e ginga.  E o que eu vejo que acontece hoje em dia, em pleno século 21 é a necessidade em mostra-se por inteiro e em todos os ângulos possíveis. 

O compartilhamento de fotos hoje em dia, por exemplo, não é mais um simples ato de mostrar algo divertido ou bonito, faz parte de um ritual de “experiências coletivas” onde o mundo deve ser visto com os olhos de todos. Assim como o prato deve ser degustado e o cheiro deve ser sentido. Tudo deve ser “vivido a centenas” e não mais à dois como deveria ser.

Uma pena encontrar almas perdidas à frente de uma máquina, ansiando viver uma vida que não é mais só delas, é de “todo mundo”.

Fui! (Participar de uma orgia virtual!!! E sem filtro…)

 

 

Páscoa

Feliz PascoaPáscoa significa o renascimento. E se bem me lembro, remonta às injustiças cometidas a um “homem do bem”. Partindo dessa premissa, mesmo não sendo católica e, na verdade, de religião nenhuma, aproveito o momento para desejar, na forma de oração, canção ou poesia, que todos os “homens de bem”, humilhados e traídos, sejam justiçados por alguma justiça divina.

Porque a justiça dos homens não cala quem mente, não acusa quem trai e não acaba com o sofrimento dos justos. A justiça dos homens é dos homens. E por isso mesmo e, através disso, se vangloria por levar o caos a todos que dele tentam escapar.

Que Jesus seja exemplo seguido por todos, como prova de que vale à pena ser bom, e que Judas e Pôncio Pilatos, mais ainda, sejam exemplos para os homens de bem. Exemplos de que a traição e a abnegação são virtudes premiadas na terra dos homens, mas que lá na outra Terra, na prometida, da qual eu tenho fé e acredito, essas virtudes são consideradas falta de caráter inafiançável.

Até lá, sigo louvando as boas ações de “homens de bem” como Jesus, e rezando fortemente para que todos os Santos, de todas as religiões que ficam atrás do morro, julguem corretamente os homens que seguem os ensinamentos da “Santa Sé dos Homens de Judas e Pilatos”.

Fui! (Me entupir de chocolate, porque ainda não é Copa e a Pasadena não vai dar em nada mesmo…)

 

Nosso Caminhar

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Por tanto tempo percorri caminhos sinuosos, acreditando que chegaria ao topo sem tanto esforço e com o mérito do prazer de percorrer estradas calcadas em abismos profundos e horizontes perdidos. Só andei em círculos desde então, sem me dar conta de que mais importante do que o local de chegada está o caminho em si, com suas estradas de terra batida, lisas e planas, ou com suas rochas pontudas e macerantes, que se abrem em um universo de possibilidades de encontros e reencontros, de ventos oportunos ou temporais impróprios, e finalmente de “vida vivida”.

O descanso de um dia inteiro de lutas e buscas só é realmente válido se for motivo de reserva para o dia seguinte, para a continuação do labor, seja ele bom ou ruim. Da mesma forma, o nosso caminhar só é válido se for curtido durante o tempo em que estamos caminhando. Parar e retroceder também é igualmente válido para o sucesso do percurso. Assim como reafirmar o caminho a seguir ou mudar de direção é apenas uma parte do caminhar. A parte em que temos que escolher. E a escolha é nossa, só nossa.

A escolha de entregar-nos, não a esse caminho, mas a essa caminhada, que se chama “nossa vida”. Porque a qualidade do caminho que escolhemos não depende de nós, mas o nosso caminhar seja em qual caminho for, esse sim depende inteiramente e unicamente de nós mesmos.

Voltando aos caminhos sinuosos antes percorridos, agora escolho caminhos mais retos e seguros, sem entretanto, ter certeza alguma de que conseguirei ser mais feliz desta forma. Apenas estou optando por andar com mais calma e com menos aventuras, um pouco mais longe dos precipícios e com mais sombras no percurso…

Fui! (aproveitar para comprar um sapatinho novo, agora sem salto alto porque minha coluna também está cansadinha…)

 

“Jusnaturalismo”

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O “Jusnaturalismo”, falando em poucas e práticas palavras, é uma corrente que procura fundamentar a razão de tudo ao que é “natural” aos olhos do homem. Com base nesta máxima, muitos homens e mulheres transportam para o seu livre caminhar neste mundo sujo, cheio de doenças contagiosas e atos pecaminosos, o seu próprio “jusnaturalismo”, que bem poderia ser classificado como seu “jusridiculismo”. 
A pureza e o pecado convivem em contradição há muito mais tempo do que a existência de qualquer tipo de razão filosófica naturalista. O homem é um ser racional e hormonicamente irracional quando se vê seduzido por um belo par de seios ou por músculos bem definidos (a gosto do freguês), sendo assim, não é justificável aparecer nu, com toda a fauna e flora da sua ecologia escancaradamente desmatada para servir de ponto turístico de contemplação alheia, quando a idéia genuína seria o simples gozo do “ambiente natural” criado por Deus (vai saber…). 
O fato é que em pleno século XXI não existe mais praia que esteja livre de contaminação, não existe mais sol que não demande um bom protetor solar (quimicamente concebido), não existe mais nem um naturista que não vá para a praia sem o seu Iphone nas mãos! O sistema mudou, a tecnologia escravizou as relações humanas, o homem se perdeu em conceitos e tradições, e a vida se tornou uma eterna busca pela sobrevivência. Mulheres que idealizam o “parto natural” se esquecem que consomem rotineiramente produtos esquentados em microondas ou que enalam substâncias tóxicas a todo instante. E esse mesmo bebê que nasceu de parto natural vai se submeter a uma batelada de exames e vacinas, vai se viciar em televisão e vai ganhar um Ipad quando completar 5 anos (ou antes!). Quem hoje vive só de salada, muitas vezes não percebe que um simples macarrãozinho na rua pode ser mais saudável (mesmo com suas calorias) do que uma folha de alface mal lavada ou muito lavada…
Voltando ao “Jusnaturalismo” a razão que impera hoje não é mais a da natureza, mas sim do que o homem consegue transformá-la. E a natureza que impera entre “jusnaturalistas” está bem longe de ser a ideal pura e natural, é a quimicamente tratada com corantes ultramodernos para parecer bem “saudável”.
Mais legítima é a mulher que tira a roupa para promover a “comoção erótica” em revistas e filmes, enquanto outras tentam se enquadrar em modelos naturais criados dentro de suas iludidas mentes que vislubram o “paraíso perdido”.
Fui! (Comprar um biquíni novo, bem grande, com muitos detalhes e dentro da “razão” da moda atual… )

Ordinária

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Muito aquém de onde nossas expectativas podem chegar, está a facilidade em nos conformarmos com o medíocre, com o básico. Somos ordinários na superfície e profundos em um conteúdo quase inalcançável. Se queremos amor, o queremos para amanhã e com um ritual próprio, acompanhado de festa e vestido branco para complementar o figurino. Se queremos luxo, o queremos na forma de suaves prestações ao longo do ano, de modo a não impactar no nosso orçamento. E se queremos desafios? Ah, esses devem vir sempre cercados de obstáculos “possíveis” de serem ultrapassados, porque, se forem muito altos, dá preguiça de saltar…

E na trilha sonora de tudo o que é ordinário estamos escutando o ritmo do “instantâneo”, que dá ao compasso da canção, o tom frenético de uma aula de spinning. Mas quando pensamos na melodia… Cadê a melodia? Melodia geralmente não é ordinária, tem cadência própria e combina com o amor verdadeiro. Essa sim dá trabalho. Então colocamos uma pitada no meio da canção, e seguimos rotineiramente no passo da multidão, que dança igualmente ensaiada, o mesmo ritmo do próximo carnaval. E nessa avenida de pequenos seres alienados está a nova moda de prazer: a banalização das emoções que consegue transformar até o gozo em um reflexo hormonal e ordinário…

Fui! (Encontrar minha essência dentro de toda a minha “ordinariedade”…)